Mesmo com queda, Brasil segue líder mundial em assassinatos de pessoas trans e travestis

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Mesmo com queda, Brasil segue líder mundial em assassinatos de pessoas trans e travestis

Manifestação em Copacabana relembra vítimas da transfobia e denuncia violência contra pessoas trans no Brasil - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil (Alô Rondônia)

País registrou 80 mortes em 2025; violência permanece estruturada e concentrada no Nordeste

Porto Velho, Rondônia —
O Brasil continua ocupando a primeira posição no ranking global de assassinatos de pessoas trans e travestis, mesmo após registrar queda no número de mortes em 2025. Ao todo, 80 assassinatos foram documentados no país no último ano, segundo o novo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado nesta segunda-feira (26). Apesar da redução de 34% em relação a 2024, o país mantém um cenário de violência persistente e sistemática há quase duas décadas.

VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E SILENCIAMENTO HISTÓRICO

Para a presidente da Antra, Bruna Benevides, os números não revelam apenas estatísticas, mas evidenciam um contexto contínuo de vulnerabilidade extrema.

“Essas mortes não são fatos isolados. São resultado de um sistema que expõe pessoas trans a exclusão social, abandono institucional, racismo, pobreza e sofrimento psicológico desde a infância”, afirmou.

O levantamento da Antra combina monitoramento diário da imprensa, denúncias diretas e dados públicos. Para Benevides, a ausência de registros oficiais demonstra um segundo nível de violência:
“Se a sociedade civil não documenta, essas pessoas simplesmente não existem para o Estado.”


ONDE A VIOLÊNCIA SE CONCENTRA

Entre os estados, Ceará e Minas Gerais lideraram os números de 2025, com oito assassinatos cada. Regionalmente, a distribuição ficou assim:
  • Nordeste: 38 mortes
  • Sudeste: 17
  • Centro-Oeste: 12
  • Norte: 7
  • Sul: 6
Ao analisar o período de 2017 a 2025, São Paulo aparece como o estado mais letal, acumulando 155 casos.

A maioria das vítimas são travestis e mulheres trans jovens, entre 18 e 35 anos, com predominância de pessoas negras e pardas.

QUEDA NAS MORTES NÃO REPRESENTA SEGURANÇA

Apesar da redução percentual, o dossiê aponta aumento nas tentativas de homicídio, indicando que a violência não diminuiu — apenas o desfecho fatal.

A Antra destaca fatores que ajudam a explicar o cenário:
  • subnotificação crônica;
  • descrédito nas instituições de segurança e justiça;
  • retração da cobertura jornalística;
  • ausência de políticas públicas específicas de enfrentamento à transfobia.
A entidade afirma ainda que o país vive um ciclo de impunidade que alimenta a continuidade das agressões.

RECOMENDAÇÕES PARA O PODER PÚBLICO

O relatório, em sua 9ª edição, apresenta ao governo federal uma série de recomendações que incluem:
  • ampliação de políticas de proteção para mulheres trans;
  • integração das políticas de gênero e diversidade;
  • medidas urgentes de prevenção, investigação e responsabilização;
  • criação de sistemas oficiais de monitoramento da violência contra pessoas trans;
  • ampliação de ações de saúde, apoio psicossocial e inclusão social.
“O relatório existe para constranger o Estado, informar a sociedade e impedir o silêncio”, disse Benevides. “Há produção de dados, conhecimento e diagnóstico. O que falta é ação.”

A entrega oficial do documento será realizada no auditório do Ministério dos Direitos Humanos.

DADOS GERAIS DA VIOLÊNCIA LGBT+ EM 2025

As estatísticas divulgadas reforçam o alerta feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), que monitora mortes violentas de pessoas LGBT+ há mais de quatro décadas.

Em 2025, foram registrados:
  • 257 mortes violentas, sendo:
  • 204 homicídios
  • 20 suicídios
  • 17 latrocínios
  • 16 mortes por outras causas (como atropelamentos e afogamentos)
  • Isso equivale a uma morte a cada 34 horas.
O Brasil também manteve a liderança mundial nesse tipo de violência, seguido de longe por México (40 mortes) e Estados Unidos (10).
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