Redução foi mais expressiva na Mata Atlântica, com quase 38%, porém Caatinga e Pantanal seguem na contramão e expõem limites das políticas ambientais
Porto Velho, Rondônia – Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais confirmam que o desmatamento diminuiu na maioria dos biomas brasileiros em 2024, na comparação com 2023. O levantamento é do sistema Prodes, referência nacional no monitoramento da supressão de vegetação nativa por imagens de satélite.
Os números são positivos, mas estão longe de permitir comemoração plena. A queda não foi homogênea e dois biomas estratégicos – Caatinga e Pantanal – registraram aumento da devastação, revelando que o problema ambiental no Brasil segue desigual, regionalizado e estrutural.
ONDE O DESMATAMENTO CAIU
Entre 2023 e 2024, a redução da supressão de vegetação nativa foi registrada em cinco biomas:
- Amazônia: −28,09%
- Área não florestal na Amazônia: −5,27%
- Cerrado: −25,76%
- Mata Atlântica: −37,89%
- Pampa: −20,08%
A maior queda ocorreu na Mata Atlântica, bioma historicamente mais devastado do país. O dado é relevante, mas especialistas lembram que percentuais elevados partem de uma base já extremamente reduzida, o que relativiza o impacto real da recuperação ambiental.
ONDE A DESTRUIÇÃO AVANÇOU
Na contramão da tendência nacional, dois biomas apresentaram crescimento no desmatamento:
- Caatinga: +9,93%
- Pantanal: +16,5%
O avanço no Pantanal preocupa de forma especial, pois ocorre após anos de queimadas severas e perda acelerada de biodiversidade. Ambientalistas alertam que qualquer aumento nesse bioma representa risco direto a um ecossistema já fragilizado, com impactos que vão além das fronteiras regionais.
O QUE OS DADOS REALMENTE MEDAM
Segundo nota técnica do Inpe, o Prodes considera exclusivamente a remoção da cobertura de vegetação nativa, independentemente do uso futuro da área. As análises combinam identificação automática por índices de vegetação e interpretação visual especializada, o que confere robustez técnica ao levantamento.
Ainda assim, os dados revelam apenas parte do problema. Eles não capturam, por exemplo, a degradação progressiva causada por exploração seletiva, queimadas recorrentes ou pressão indireta do avanço agropecuário.
POLÍTICAS FUNCIONAM, MAS NÃO BASTAM
Para a vice-coordenadora do programa BiomasBR do Inpe, Silvana Amaral, a redução do desmatamento na maioria dos biomas confirma a importância de políticas públicas de comando e controle, além de acordos e termos firmados com setores produtivos.
A avaliação é técnica, mas o próprio cenário revela um limite claro: onde o Estado fiscaliza e regula, o desmatamento recua; onde o controle falha, ele avança. Ou seja, os dados mostram que política ambiental funciona — quando aplicada de forma contínua e regionalmente ajustada.
MENOS DESMATAMENTO NÃO É SINÔNIMO DE SOLUÇÃO
A consolidação dos dados do Prodes é fundamental para análise de tendências de médio e longo prazo e para orientar políticas públicas. No entanto, especialistas alertam que redução percentual não significa vitória ambiental.
Enquanto houver biomas com crescimento da devastação, fiscalização desigual e pressão econômica sobre áreas frágeis, o Brasil seguirá convivendo com um paradoxo: avança nos números, mas permanece vulnerável na prática.
0 Comentários