Encerramento de unidades industriais reacende debate sobre competitividade, política tarifária e risco de desindustrialização no país.
Porto Velho, Rondônia - O município de Cubatão (SP), um dos mais emblemáticos polos industriais do Brasil, busca apoio do governo federal para tentar reverter o fechamento de fábricas que, por décadas, sustentaram a economia local e regional. Em menos de um ano, duas grandes empresas encerraram suas atividades na cidade: a petroquímica Unigel e a Yara Brasil Fertilizantes, acendendo o alerta sobre o futuro da indústria nacional.
O prefeito César Nascimento (PSD) anunciou que pretende ir a Brasília acompanhado de representantes políticos, empresariais e sindicais da Baixada Santista para solicitar providências junto à União. Entre as pautas estão a revisão da política tarifária do setor petroquímico, especialmente sobre a importação de fertilizantes, além de medidas de defesa comercial e melhores condições de financiamento à produção.
POLO INDUSTRIAL EM DECLÍNIO
Segundo o prefeito, a perda de protagonismo de Cubatão ultrapassa os limites do município. “O enfraquecimento de um polo industrial dessa relevância não é um problema local, mas um fator que impacta negativamente toda a indústria nacional”, afirmou.
Cubatão já foi referência nacional nos setores siderúrgico, químico, petroquímico e de fertilizantes, chegando a empregar milhares de trabalhadores diretos. Atualmente, o cenário é de retração contínua, com queda expressiva no número de indústrias e postos de trabalho.
ENCERRAMENTO DE ATIVIDADES DA UNIGEL
Após quase 70 anos de operação em Cubatão, a Unigel anunciou, no início de janeiro, a paralisação das atividades da fábrica de estireno e tolueno, insumos utilizados em plásticos, tintas, resinas e eletrodomésticos. A empresa justificou a decisão pelo cenário de baixa histórica da indústria química global, marcada por excesso de oferta e aumento da capacidade produtiva internacional desde 2023.
Em recuperação judicial desde outubro de 2025, a Unigel acumula dívidas superiores a R$ 5 bilhões. Apesar de não descartar uma retomada futura das operações, a companhia afirmou não haver perspectiva de reversão no curto prazo.
IMPACTO NO EMPREGO E NA ARRECADAÇÃO
Antes da paralisação, a unidade de Cubatão mantinha cerca de 70 trabalhadores diretos e 30 indiretos. A prefeitura chegou a oferecer incentivos fiscais para evitar o fechamento e preservar empregos, mas a medida não foi suficiente diante do cenário econômico enfrentado pela empresa.
O prefeito também defendeu uma mobilização conjunta dos municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista para pressionar os governos estadual e federal por políticas de estímulo à indústria.
FERTILIZANTES, IMPORTAÇÃO E DEPENDÊNCIA EXTERNA
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e de Fertilizantes da Baixada Santista (Sindquim), Herbert Passos Filho, destacou que o fechamento de fábricas agrava um processo de esvaziamento industrial que se arrasta há décadas.
Segundo ele, o Brasil se tornou cada vez mais dependente de fertilizantes importados. Desde 2008, a produção nacional caiu de cerca de 11 milhões para 6 milhões de toneladas por ano, enquanto o consumo saltou de 24 milhões para mais de 41 milhões de toneladas anuais.
“O país abriu mão de proteger sua indústria e passou a incentivar a importação. Isso reduz empregos qualificados e enfraquece a soberania produtiva”, afirmou o sindicalista.
POLÍTICAS DE ESTÍMULO E DISPUTA TRIBUTÁRIA
Nos últimos anos, o governo federal retomou programas de incentivo ao setor químico, como o Regime Especial da Indústria Química (Reiq) e o recém-sancionado Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), que prevê mais de R$ 10 bilhões em incentivos fiscais entre 2027 e 2031.
Por outro lado, mudanças na tributação dos fertilizantes, como o aumento gradual do ICMS, enfrentam resistência do setor agropecuário, que aponta elevação de custos bilionários para os produtores rurais.
GOVERNO RECONHECE DESAFIOS DE COMPETITIVIDADE
O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, reconheceu que a indústria petroquímica brasileira enfrenta dificuldades diante da concorrência internacional.
Segundo ele, o governo tem adotado medidas para melhorar a competitividade e fortalecer a defesa comercial, respeitando as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). “O Brasil defende o livre comércio, mas com regras justas e proteção contra práticas desleais”, afirmou.
ALERTA SOBRE DESINDUSTRIALIZAÇÃO
Entidades empresariais, como o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), lamentaram o fechamento das fábricas e alertaram para o risco de aprofundamento do processo de desindustrialização, que se intensifica desde os anos 1980.
A avaliação é de que, apesar de iniciativas já adotadas pelo governo federal, ainda são necessárias medidas mais robustas e integradas para garantir a sustentabilidade do setor produtivo e a preservação de empregos no país.
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