'Pivate Sandbox' Após Apple, Google vai mudar regras para a privacidade. Entenda


'Big tech' vai limitar compartilhamento de dados com apps e dificultar rastreamento de anúncios. Empresa reage a mudanças no iOS, diz especialista

Porto Velho, RO - Até o fim deste ano, o Google deve lançar uma versão beta para desenvolvedores do sistema operacional Android capaz de combinar soluções de publicidade mais eficazes para as empresas com maior proteção à privacidade dos usuários.

O anúncio foi feito nesta quarta-feira pela gigante do Vale do Silício, na Califórnia (EUA), que há anos domina o bilionário mercado global de publicidade digital com seu buscador líder e outros serviços on-line e está na mira dos órgãos reguladores.

No alvo: Google enfrenta processos em vários estados americanos por práticas de rastreamento de localização

O plano marca a segunda fase de projeto "Privacy SandBox" do Google. Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que as mudanças anunciadas empresa respondem às pressões da sociedade e dos órgãos reguladores por mais privacidade na internet.

A forma de implementação é também considerada menos abrangente em comparação à executada pela Apple.

O Google, que fechou um acordo com a Autoridade da Concorrência e Mercados do Reino Unido (CMA) para eliminar o uso de cookies no navegador Chrome até 2023 e substituí-los pelos 'Topics' (categorias de interesse que formam ferramenta menos invasiva), fez um convite aberto a todos os agentes da indústria de publicidade digital.

Esse público-alvo inclui desenvolvedores e anunciantes. O convite foi para que eles revisem as propostas da empresa com relação à privacidade dos anúncios no Android e teçam comentários.

O Google pretende limitar o compartilhamento de dados dos usuários com aplicativos e eliminar em breve o Advertising ID, que é uma espécie de identificador de dispositivo para anunciantes. Ele permite rastrear anonimamente a atividade de usuários em aparelhos Android, embora a empresa tenha se comprometido com a manutenção do sistema por pelo menos dois anos.

No lugar do Advertising ID, a empresa propõe que sejam feitos anúncios personalizados com base em tópicos recentes de interesse do usuário, de forma parecida com o funcionamento atual do Topics em seu navegeador. No entanto, não deu mais detalhes.

Após sete anos de investigações, a Comissão Europeia determinou multa recorde de € 2,42 bilhões (US$ 2,72 bilhões) ao Google por desrespeitar leis antitruste com seu serviço de vendas on-line e abusar de seu domínio de mercado.
Seria uma resposta à Apple?

Sem mencionar diretamente a Apple, o Google também afirmou no comunicado que "outras plataformas adotaram uma abordagem diferente à privacidade dos anúncios, restringindo sem rodeios as tecnologias existentes usadas por desenvolvedores e anunciantes".

Para Leonardo Brossa, sócio da agência Quintal, o comunicado do Google é uma resposta clara à Apple, que já vem num esforço de oferecer privacidade como um diferencial dos seus produtos, sejam eles hardwares ou softwares.


Apple mudou seu sistema operacional no ano passado Foto: Reuters

Ele pondera, contudo, que a estratégia da gigante de buscas é "menos abrupta" que a da Apple, vistas as diferenças entre as formas de geração de receita. Embora ambas vendam serviços digitais, a Apple também vende dispositivos e o Google vende, principalmente, anúncios.

— O Google, como maior plataforma de publicidade do mundo hoje, sabe que não pode dar um tiro no pé. O que eles estão fazendo é um movimento de transição, conversando com o desenvolvedor. No fim das contas, vão encontrar uma solução.

Mas a publicidade vai passar por um momento de adequação por meio das plataformas. Acho que vai acontecer novamente uma concentração da mídia programática, mas em prol de privacidade — analisa Brossa.

Anunciantes terão de se mexer

Para Claudia Boaventura, diretora de comunicação da Abradi, associação que reúne as agências digitais, as mudanças anunciadas pelo Google - assim como a nova política de privacidade da Apple - obrigam o mercado de anúncios digitais a se reestruturar, uma vez que limitam a quantidade de dados disponíveis para criação de publicidade direcionada.

Ela também destaca a diferença na forma de implementação, em comparação com a adotada pela fabricante do iPhone:

— Os gestores de tráfego sofreram um impacto com o iOS 14 (que implementou nova política de privacidade), muitos foram pegos de surpresa. O Google acerta na comunicação e acho que uma decisão como essa acaba forçando ações de empresas que antes só gastariam uma verba no anúncio patrocinado, mas não estavam preocupadas em fazer um bom serviço ou em gerar conteúdo realmente útil.

Facebook reage de forma distinta

Na Apple, a Transparência de Rastreamento de Aplicativos (ATT) deu ao sistema operacional iOS 14.5 um recurso que permite aos usuários escolherem se permitem ou não serem rastreados por aplicativos e serviços.


Placa do botão 'curtir', na sede do Facebook, apareceu coberta nesta quinta-feira Foto: Reprodução

Essa mudança já tem impactado os negócios de publicidade de várias plataformas, mas notadamente o Facebook, que recentemente amargou perdas e a maior desvalorização de ações já registrada no mercado americano.

O Facebook frustrou investidores ao admitir que deve perder cerca de US$ 10 bilhões em receitas com a venda de anúncios em 2022 em razão das mudanças da Apple, combatidas ferozmente pelo líder da rede social, Mark Zuckerberg.


Mark Zuckerberg apresenta novo nome da empresa: Facebook Inc. passa a se chamar 'Meta' Foto: Reprodução/Connect

Dessa vez, a Meta, controladora do Facebook, expressou apoio à forma como o Google planeja implementar seus ajustes de privacidade.

"Encorajador ver essa abordagem colaborativa de longo prazo para a publicidade personalizada de proteção à privacidade do Google", escreveu Graham Mudd, vice-presidente de marketing de produtos, anúncios e negócios do Facebook no Twitter.

“Esperamos continuar trabalhando com eles e com a indústria em tecnologia de aprimoramento de privacidade por meio de grupos do setor”.

Fonte: O Globo


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