Muito além da gasolina: Impacto da alta do petróleo vai das embalagens a tecidos e calçados


Derivados da commodity são usados como matéria-prima para uma gama de produtos — químicos, plásticos e têxteis, por exemplo — e isso se traduz em aumento de custos

Porto Velho, RO - A alta de 46% na cotação do petróleo nos últimos 12 meses não mudou apenas os preços dos combustíveis. Em fevereiro do ano passado, o barril do Brent era negociado na faixa de US$ 65. Na quarta-feira, fechou em alta de 1,64%, a US$ 94,98. Essa mudança para o maior patamar em sete anos atinge em cheio a indústria.

Derivados de petróleo são usados como matéria-prima para uma gama de produtos — químicos, plásticos e têxteis, por exemplo — e isso se traduz em aumento de custos. O resultado são repasses ao longo da cadeia de produção que terminam no bolso do consumidor.

— A indústria é pressionada com a alta de preços das matérias-primas derivadas de petróleo e acaba repassando à cadeia de produção e ao consumidor. O transporte e a logística já estão mais caros com o aumento do preço dos combustíveis e do frete. Tudo isso se transforma em mais inflação — analisa Renan Sujii, estrategista da RIMS3 Capital, que acompanha o comportamento do preço do petróleo.

A indústria de plástico, por exemplo, viu o preço de insumos como polipropileno (usado para fabricar de sacos para grãos e fertilizantes a cadeiras plásticas, brinquedos e eletrodomésticos) e polietileno (usado em embalagens de biscoitos, massas e sacos plásticos) subir mais de 100%, em média, segundo José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast, associação do setor.
Cadeia Longa




O PVC também teve alta similar e é utilizado em embalagens de refrigerantes, água, alimentos e remédios. Roriz ressalta que, na cesta básica do brasileiro, 80% dos itens são embalados com plástico:

— Espero que este nível de aumento da matéria-prima não se repita porque seria um desastre, já que os consumidores arcariam com o aumento, especialmente os mais pobres.

Dólar cai a R$ 5,12

Em 2021, as matérias-primas subiram no embalo da retomada da demanda, da alta do petróleo e do dólar valorizado. Este ano, com inflação alta, a demanda está mais fraca e o dólar dá sinais de alívio. Na quarta-feira, a moeda americana fechou em baixa de 1,01%, a R$ 5,12, o menor nível desde o fim de julho.

Os investidores reagiram à ata do banco central americano, que confirmou a perspectiva de alta de juro, mas com atuação mais incisiva para combater a inflação.

O alívio no câmbio não compensa tudo, porém. Segundo Roriz, uma queixa do setor é a concentração do mercado na Braskem, petroquímica que é a maior produtora de resinas.

— Não há concorrência na matéria-prima. Temos um oligopólio no fornecimento, o que facilita o repasse do preço à indústria — diz.

O presidente da Abiplast também se queixa das tarifas de importação de matérias-primas, de 14%. Nos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na qual o Brasil tenta conquistar uma vaga, a tarifa é de 6%.

Para Ilan Arbetman, analista de petróleo e gás da Ativa Investimentos, grandes e pequenas empresas têm dificuldade de segurar impacto dessa magnitude e precisam repassar ao menos parte ao consumidor. Além de insumos, há pressões de transporte, logística e energia elétrica com o uso de termelétricas que usam diesel como combustível.

Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) cita reajuste de 32% no poliéster (matéria-prima com origem no petróleo, presente em roupas e cortinas), entre janeiro de 2020 e janeiro deste ano, acompanhando a escalada do barril.

— Há relação direta de reajuste de preços de matérias-primas com a alta do petróleo. E há o caso do elastano da China, que teve reajuste de 115% no mesmo período com o crescimento da demanda por esse produto e dólar mais caro — diz Pimentel.

Nos têxteis, considerando malhas e tecidos, a inflação de “porta de fábrica”, sem impostos e fretes, medida pelo Índice de Preços ao Produtor (IPP), do IBGE, ficou em 27% ano passado, refletindo a alta das matérias-primas. Já o IPP do vestuário subiu 16%, com a inflação ao consumidor subindo 10%. Isso mostra que o reajuste de matérias-primas não chegou totalmente ao varejo.
Margem menor

Para setores que são consumidores de produtos químicos, como montadoras, embalagens, construção civil e calçados, a alta dos preços, ano passado, chegou a 62,25%. Dependendo do peso dos químicos no produto final também houve repasse aos preços, embora não no mesmo nível, explica Fátima Giovanna, diretora de economia e estatística da Abiquim, associação do setor.

A demanda por produtos químicos no país cresceu 20% em dois anos, recorde histórico, enquanto a oferta não acompanhou. Indústria de base, os químicos passam por diversas cadeias produtivas, da agricultura a saúde. Com a pandemia, cresceu a produção de luvas, máscaras, álcool gel, medicamentos e vacinas.

Ao mesmo tempo, o preço da nafta, principal insumo químico e derivado do petróleo, subiu de US$ 428 por tonelada, em dezembro de 2020, para US$ 695 a tonelada em dezembro de 2021. O Brasil importa 80% de toda a nafta consumida pela indústria. O preço de parte do gás usado pelas indústrias químicas está atrelado ao petróleo.

A fabricante de calçados Usaflex, com quatro unidades industriais no Rio Grande Sul, viu aumento médio de 20% a 25%, no último ano, nas resinas termoplásticas usadas em solados e palmilhas. Em algumas resinas, a alta foi de 70%.


Disparada do preço do petróleo Foto: Angus Mordant / Reuters

Para evitar preços ainda mais elevados, já que o petróleo continua subindo, e se prevenir de eventual falta de resinas, a Usaflex vem trabalhando com estoques reforçados.

— Repassamos cerca de 10% (do aumento de insumos ao consumidor), o que reduziu nossa margem. Mas temos trabalhado para aumentar a produtividade e buscar novos fornecedores de matéria-prima de qualidade — afirma Marcelo Guimarães, diretor industrial da Usaflex.

Paulo Engler, diretor executivo da Abipla, associação da indústria de higiene e limpeza, diz que frete e energia foram os fatores mais relevantes para o setor, incluindo embalagens e insumos. Com produtos de menor valor, não foi possível repassar tudo, o jeito foi reduzir a margem.

Fonte: O Globo

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