"Isolar a Rússia e buscar ação multilateral", diz especialista sobre meios para conter invasão russa


Rússia se prepara desde 2014 para reduzir dependência do Ocidente e suportar efeitos das sanções aplicadas contra Moscou

Porto Velho, RO - Após uma série de sanções internacionais tomadas por países ocidentais contra Moscou, que invade a região metropolitana de Kiev, capital da Ucrânia, nesta sexta-feira (25), buscar uma ação multilateral e ampliar contatos diplomáticos é um dos meios tentar conter a invasão das tropas de Vladimir Putin à Ucrânia.

Além disso, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Felipe Loureiro, acredita que o isolamento russo pode minimizar os ataques na região. “É preciso isolar a Rússia o máximo possível diante da agressão de Moscou à Kiev [capital da Ucrânia]”, disse.

Até o momento, as sanções impactam as exportações russas, os Estados Unidos limitaram as exportações para a Rússia de produtos tecnológicos destinados a setores da defesa e da aeronáutica, isolam o setor financeiro, com medidas contra bancos e representantes da elite comercial, abrangem o setor de energia e proíbem a entrada de pessoas em territórios da União Europeia. As próximas medidas, segundo Loureiro, são ampliar as sanções.

“É preciso deixar claro que a atitude da Rússia é de desrespeito à soberania e à integridade territorial de um estado soberano e não pode ser aceita”, diz. “Deve-se fazer isso de uma forma multilateral. Na ONU não será viável porque a Rússia tem poder de veto e inviabilizaria qualquer tipo de ação.” O caminho, explica Loureiro, é tentar reunir o maior número possível de países que concordem em preservar a ordem internacional, a soberania e a integridade territorial das nações.

É preciso deixar claro que a atitude da Rússia é de desrespeito à soberania e à integridade territorial de um estado soberano e não pode ser aceita

FELIPE LOUREIRO, PROFESSOR DA USP

Ele alerta também que é possível ações de retaliação por parte da Rússia, como ataques cibernéticos, retaliações na exportação de energia, gás e petróleo. “Isso pode ter um efeito muito negativo para o ocidente, sobretudo, porque estamos saindo de uma pandemia, de uma situação econômica muito frágil e podemos enfrentar uma nova retaliação econômica, se houver uma movimentação com sanções.”

O especialista afirma ainda que o mecanismo dissuasório mais adequado seria a promessa dos EUA de ajudar a Ucrânia militarmente no caso de invasões. “Isso, porém, provocaria o risco de tropas russa e americanas entrarem em contato entre si, causando uma guerra entre Rússia e EUA com consequências catastróficas para o sistema internacional.”

Nesse sentido, ajudar o governo ucraniano por meio da assistência militar para garantir a resistência ucraniana poderia acarretar uma reação russa mais incisiva contra o Ocidente. “EUA e Otan descartaram uma intervenção direta”, afirma Loureiro.

A invasão russa à Ucrânia demonstrou, segundo Loureiro, que Putin estava decidido a agir. “Se ele não recebesse aquilo que demandou em relação à Otan e aos EUA, que a Ucrânia ficasse fora da Otan e que a Otan retirasse equipamentos militares e tropas do leste da Europa, realizaria um ataque a várias partes do país”, afirma o professor, que lembra que a Rússia é uma potencial nuclear.

Ainda que as sanções afetem a economia russa, Loureiro afirma que o país vem se preparando para reduzir a dependência do Ocidente. “Desde 2014, a Rússia vem ampliando a resiliência no sentido de conseguir suportar melhor as sanções do ocidente”, explica.

“Ela conseguiu ampliar suas reservas internacionais, fez um processo de substituição de exportações no sentido de deixar a balança comercial menos vulnerável a determinadas importações sensíveis e vem realizando o máximo possível de transações financeiras fora da área do dólar.”

Um dos pontos mais relevantes do jogo de forças mundial é a posição da China no conflito. “A variável chave era como a china se portaria diante da invasão russa. A china pode contribuir bastante para diminuir o impacto das sanções sobre a Rússia.” O especialista não vê, entretanto, um fortalecimento de Putin em relação à países aliados, como Venezuela, Nicarágua e Síria ou mesmo sobre a China.

“Apesar de a China estar claramente apoiando a Rússia, não vejo o fortalecimento da Rússia e sim um momento em que o país decidiu usar as vias militares de uma maneira dramática para tentar recuperar sua esfera de influência em um país que considera que nunca deveria ter ficado independente de Moscou”, afirma.

Fonte: R7


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