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Deolane presa: troca de bilhetes em presídio deu origem à investigação que prendeu a influenciadora

Material apreendido em 2019, no esgoto de celas de líderes da facção, continha ordens internas da facção, contatos com integrantes do alto escalão do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos.

Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/TV Globo e Redes Sociais

Porot Velho, RO - A prisão da influenciadora Deolane Bezerra na Operação Vérnix, realizada nesta quinta-feira (21), teve origem na troca de bilhetes e manuscritos ligados à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) apreendidos há sete anos em um presídio em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.

O esquema, alvo da operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil, usava uma transportadora de cargas fantasma para lavar dinheiro. Os recursos eram repassados para outras contas com o objetivo de dificultar o rastreio. Duas dessas contas estão em nome de Deolane.

Os investigadores afirmam que Deolane mantinha ainda vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora investigada. A polícia diz não ter identificado, nas contas da influenciadora, prestações de serviços compatíveis com os valores recebidos (entenda as suspeitas sobre a influenciadora).

Além da influenciadora, que tem mais de 21 milhões de seguidores nas redes sociais, também havia um mandado de prisão contra Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC, que já está preso.

Segundo a investigação, o material apreendido em 2019 levou à abertura de três inquéritos que revelaram a estrutura financeira do PCC e permitiram a identificação de operadores.

Os manuscritos estavam com dois presos e continham ordens internas da facção, contatos com integrantes do alto escalão do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos. Os dois investigados foram condenados e transferidos para o sistema penitenciário federal.

Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/TV Globo e Redes Sociais

Os bilhetes estavam escondidos na caixa de esgoto das celas e traziam planos para matar funcionários do sistema prisional e também informações sobre o esquema do tráfico de drogas do PCC comandado por Gilmar Pinheiro Feitoza, apontado como liderança do PCC dentro da Penitenciária de Presidente Venceslau.

Agentes penitenciários localizaram os manuscritos e documentos escondidos na cela de Gilmar e Sharlon Praxedes da Silva, conhecido como “Maradona”, e na caixa de esgoto durante revista realizada em julho de 2019.

Durante a análise do material, os investigadores encontraram menções a uma “mulher da transportadora”, apontada nos bilhetes como responsável por levantar endereços de agentes públicos para viabilizar ataques planejados pela organização criminosa.

A referência levou à abertura de um segundo inquérito, voltado a identificar a mulher citada e entender a ligação entre uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau e a facção. As investigações concluíram que a empresa funcionava como companhia de fachada usada para lavagem de dinheiro do PCC.

Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. A Justiça também determinou bloqueios financeiros de R$ 357,5 milhões e de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões.

No caso específico de Deolane, a Justiça bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores atribuídos à influenciadora.

Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está se "inteirando dos fatos". O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais não foi localizada pela reportagem.

Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/GloboNews


Celular apreendido revelou ligação com Deolane

Em 2021, a Operação Lado a Lado aprofundou as investigações e apontou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico e uso da transportadora como braço financeiro da facção criminosa.

Durante a operação, a polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. Segundo a investigação, o aparelho revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro realizada pela empresa Lado a Lado Transportes, também chamada Lopes Lemos Transportes.

Os investigadores afirmam que Ciro comprava caminhões, realizava pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e do irmão dele, Alejandro Camacho, além de administrar patrimônio em nome dos dois.

A partir da análise do celular, surgiu uma nova frente investigativa relacionada a conexões financeiras com Deolane Bezerra.

Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à Operação Vérnix, do MP de SP. — Foto: Reprodução/GloboNews

Segundo a polícia, imagens encontradas no aparelho mostram depósitos para contas de Deolane e de Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização criminosa.

A investigação sustenta que valores da transportadora eram destinados a Marcola, Alejandro e familiares por meio de contas ligadas a Everton e à influenciadora.

➡️ Marcola é apontado como chefe do PCC e está preso na Penitenciária Federal de Brasília. Ele foi notificado sobre a nova ordem de prisão preventiva.

Entre os familiares investigados estão:

    * Alejandro Camacho, irmão de Marcola, que também está preso em Brasília e foi notificado sobre a nova ordem de prisão.
    * Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola e apontada como intermediária nos negócios da família, está foragida na Espanha. Inicialmente, havia sido informado que Paloma tinha sido presa na operação.
    * e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola e apontado como o destinatário do dinheiro lavado da família, também é alvo de mandado de prisão e estaria na Bolívia.


Depósitos fracionados e ocultação de recursos

O cruzamento de provas apreendidas com relatórios financeiros levou a polícia a apontar Deolane como recebedora de dinheiro proveniente do PCC. Segundo os investigadores, a influenciadora mantinha vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora investigada.

Parte das movimentações ocorria por meio de depósitos em espécie feitos a partir do caixa da facção, segundo a investigação.

Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados inferiores a R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar rastreamento financeiro.

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/video/entenda-a-ligacao-entre-deolane-bezerra-e-marcola-que-levou-a-prisao-da-influenciadora-14631861.ghtml
Entenda a ligação entre Deolane Bezerra e Marcola, que levou à prisão da influenciadora

A polícia afirma ainda que Everton “Player” indicava as contas da influenciadora para “fechamentos” mensais do esquema financeiro.

As investigações também identificaram quase 50 depósitos feitos em duas empresas ligadas a Deolane, totalizando R$ 716 mil. Os valores partiram de uma empresa apresentada como banco de crédito cujo responsável, segundo a investigação, recebe cerca de um salário mínimo por mês.

A análise financeira não encontrou pagamentos compatíveis com os supostos créditos relacionados às transferências. Para os investigadores, isso indica ocultação e dissimulação de recursos da facção criminosa.

A polícia também afirma não ter identificado prestação de serviço jurídico que justificasse os valores recebidos pela influenciadora.

Segundo a investigação, a projeção pública de Deolane, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram usadas como “camadas de aparente legalidade” para dificultar a identificação da origem ilícita do dinheiro.

Ao autorizar as prisões, a Justiça de São Paulo apontou risco de destruição de provas, ocultação de patrimônio, interferência na investigação e fuga dos investigados.

Fonte: G1
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