Exoneração de coordenadora do PIB reacende desgaste interno e levanta dúvidas sobre autonomia técnica do instituto
Porto Velho, Rondônia – A turbulência dentro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ganhou um novo capítulo nesta semana após a exoneração de Rebeca Palis, coordenadora responsável pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). A saída, considerada inesperada e mal explicada por servidores, intensificou o clima de desconfiança entre o corpo técnico e a direção comandada por Marcio Pochmann.
A mudança ocorre em um momento crítico: faltam pouco mais de 30 dias para a divulgação oficial do PIB de 2025, um dos dados econômicos mais importantes do país. Três outros servidores da área técnica também renunciaram a seus cargos em solidariedade à coordenadora, ampliando a sensação de ruptura interna.
MAL-ESTAR ENTRE TÉCNICOS E DIREÇÃO
Segundo representantes do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge), a decisão foi tomada sem justificativa técnica consistente. A dirigente sindical Clician do Couto Oliveira classificou as exonerações como “arbitrárias” e afirmou que a gestão tem ignorado debates institucionais.
“A relação com a direção está desgastada. A atual cúpula parece alheia às atribuições legais e ao papel institucional do IBGE”, disse a sindicalista.
Nos bastidores, técnicos temem que alterações bruscas em equipes-chave possam comprometer a credibilidade dos indicadores divulgados pelo órgão — especialmente num contexto em que os números oficiais já vêm sendo usados politicamente em disputas nacionais.
UM HISTÓRICO DE CONFLITOS
A gestão de Pochmann acumula episódios de atrito desde sua indicação em 2023. À época, setores técnicos e parte do Congresso questionaram a escolha do economista por vê-lo como figura politicamente alinhada ao governo.
Em 2024, a polêmica tentativa de criação da Fundação IBGE+, que permitiria captar recursos privados para financiar pesquisas, foi encarada pelos servidores como risco direto à autonomia técnica do instituto. A proposta motivou uma carta pública assinada por diferentes áreas, acusando a direção de “posturas autoritárias” e de subordinar o IBGE a interesses políticos.
O governo recuou e suspendeu o projeto após forte pressão.
Outro ponto de desgaste foi a determinação de retorno presencial de servidores que trabalhavam em home office desde a pandemia, sem diálogo prévio com as áreas afetadas.
POR QUE A EXONERAÇÃO DO SETOR DO PIB É SENSÍVEL
As Contas Nacionais formam o núcleo mais técnico do IBGE. É desse departamento que saem dados do PIB, da produtividade, da composição da renda e de outros indicadores usados por governos, investidores, organismos internacionais e pesquisadores.
Qualquer instabilidade na equipe é acompanhada com preocupação por especialistas, pois a credibilidade dos números econômicos depende diretamente da estabilidade metodológica e da independência técnica.
A saída de Rebeca Palis, profissional reconhecida e há anos integrada ao setor, gerou apreensão adicional por ocorrer em meio ao calendário de fechamento das contas de 2025.
UM IBGE MAIS FRÁGIL?
Servidores afirmam que a crise atual é sintoma de um problema maior: o enfraquecimento do diálogo institucional e a tentativa de centralização de decisões estratégicas. A percepção interna é de que mudanças relevantes estão sendo conduzidas “de cima para baixo”, sem respeito ao acúmulo técnico do órgão.
Para parte dos trabalhadores, a situação compromete a missão histórica do IBGE, que sempre se pautou pela independência metodológica e pela transparência de dados — pilares essenciais para que estatísticas públicas sejam confiáveis.
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