Ministro diz que governo trabalha para reduzir jornada, mas proposta enfrenta resistência empresarial e depende de articulação no Congresso
Porto Velho, Rondônia – O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, afirmou nesta terça-feira (27) acreditar que a proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1 – considerada uma das principais bandeiras sociais do governo Lula – poderá ser votada e aprovada ainda no primeiro semestre de 2026. A declaração, porém, ocorre em meio a resistência de setores empresariais e incertezas sobre a capacidade de articulação da base governista na Câmara.
GOVERNO APOSTA EM REDUÇÃO DE JORNADA
Durante entrevista após um evento na Fiocruz, no Rio de Janeiro, Boulos reforçou que o Planalto trabalha na redução da carga semanal de trabalho e na ampliação do tempo livre da população. Ele disse acreditar que o tema pode avançar rapidamente no Congresso.
“Espero que possa ser pautado, aprovado e promulgado pelo presidente Lula neste primeiro semestre, para que os trabalhadores tenham paz, descanso e tempo com a família”, declarou.
A proposta defendida pelo governo busca transformar em lei um novo padrão de jornada, substituindo a escala 6x1 por 5x2, com dois dias de descanso por semana.
RESISTÊNCIA DO SETOR PRODUTIVO
Questionado sobre a oposição de grandes empresários ao projeto, Boulos afirmou que a reação não surpreende:
“Quando foi que grande empresário foi a favor de direito do trabalhador? Nunca vi. Se dependesse deles, a escala seria 7x0”, disse, adotando tom crítico ao setor produtivo.
A fala reforça o clima de tensão entre o governo e entidades representativas da indústria e do comércio, que alertam para aumento de custos, impacto na produtividade e possíveis demissões caso a mudança seja aprovada sem período de transição.
ARTICULAÇÃO COM A CÂMARA É DECISIVA
A mudança depende de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 8/2025), apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e que já conta com 226 assinaturas. Apesar do número expressivo, a tramitação só avança com apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), com quem Boulos afirma ter mantido reuniões recentes e agendado novas conversas.
A oposição, por sua vez, já sinaliza resistência. Parlamentares ligados ao agronegócio e ao setor de serviços indicam que irão pressionar para retardar ou descaracterizar o texto.
MUDANÇA JÁ COMEÇOU NO PRÓPRIO PLANALTO
Em dezembro de 2025, o Palácio do Planalto anunciou que eliminou a escala 6x1 para trabalhadores terceirizados que atuam no prédio da Presidência — como equipes de limpeza e copa — que passaram a cumprir jornadas de 5x2.
A medida é usada pelo governo como “prova de conceito” para defender que a mudança é viável e pode ser aplicada a outros setores da economia, embora sindicatos e especialistas apontem desafios para áreas como comércio, saúde e transporte.
O QUE ESTÁ EM JOGO
A proposta que extingue a escala 6x1 é uma das pautas sociais mais ambiciosas do governo, mas também uma das mais polêmicas. A depender da articulação política e da resistência econômica, o tema pode se tornar um dos grandes embates do ano legislativo — especialmente em um ano eleitoral.
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