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Brasileiros são recrutados como voluntários para guerra na Ucrânia e enfrentam riscos sem apoio oficial

Gabriel indo para a última batalha antes de morrer, mesmo com braço quebrado (esq) e ao lado do parceiro de batalhas Gabriel Lemos, brasileiro de Santa Catarina, que também morreu. — Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/G1

Porto Velho, Rondônia – Um número crescente de brasileiros tem sido recrutado informalmente para integrar forças militares da Ucrânia no conflito contra a Rússia, por meio de anúncios nas redes sociais que prometem apoio logístico, documentos facilitados e até treinamento militar. No entanto, familiares denunciam que os voluntários são levados diretamente ao front de combate, sem preparo, expostos a riscos extremos e sem qualquer suporte oficial.

Conhecido entre os aliciadores como o “tour mais perigoso da Europa”, o esquema exige que os próprios interessados financiem a viagem e mantenham segredo até mesmo da família. O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) confirmou que, até o momento, nove brasileiros morreram na guerra e outros 17 estão desaparecidos.

Jovens brasileiros são alvos do recrutamento informal

Na última semana, a família do mineiro Gabriel Pereira, de 21 anos, confirmou que o jovem morreu em combate na Ucrânia. Ele havia sido recrutado por meio de redes sociais no início de 2025, após ser convencido de que teria apoio e segurança para atuar como voluntário. Gabriel saiu de Belo Horizonte, onde trabalhava como cobrador de ônibus, e custeou a própria viagem, no valor aproximado de R$ 3 mil.

Segundo o irmão, João Victor Pereira, a família só soube do paradeiro de Gabriel três semanas após ele desembarcar na Europa. “Disseram que teriam treinamento, mas quando chegaram, foram colocados direto nas linhas de frente da guerra”, relatou.

Gabriel teria atuado em diversas regiões da Ucrânia, sempre em áreas de combate direto com tropas russas. Seu último contato com a família ocorreu no dia 3 de julho. Pouco tempo depois, foi encaminhado para uma missão considerada de alto risco, próximo à fronteira com a Rússia, sem qualquer equipamento adicional e sem passaporte.

A confirmação da morte veio no dia 17 de julho, através de amigos brasileiros que também haviam sido recrutados, mas conseguiram retornar ao país. Segundo os familiares, o nome de Gabriel constava em listas divulgadas por canais russos que relatam perdas do exército ucraniano. Apesar disso, não houve reconhecimento oficial por parte das autoridades da Ucrânia e, até o momento, o corpo do jovem não foi repatriado.

Casos semelhantes e dificuldades enfrentadas

Outro brasileiro envolvido em circunstâncias semelhantes é Gustavo Viana Lemos, de 31 anos, ex-militar da Marinha do Brasil, natural de Santa Catarina. Ele teria se juntado ao exército ucraniano em fevereiro deste ano. Informações preliminares sugerem que ele também morreu em combate, mas o caso ainda não teve confirmação oficial, e a família permanece sem informações concretas.

Relatos apontam que muitos voluntários brasileiros, ao chegarem à Ucrânia, têm seus passaportes retidos, o que impede o retorno ao país e dificulta a identificação em caso de morte. Há ainda denúncias de que contratos assinados com a Legião Internacional de Defesa da Ucrânia não são cumpridos, inclusive cláusulas que preveem o translado dos corpos em até 45 dias.

Governo brasileiro acompanha os casos

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores reforçou que não incentiva a participação de brasileiros no conflito e que atua apenas em situações emergenciais, como o contato com familiares de desaparecidos e falecidos. No entanto, o Itamaraty reconhece que a falta de canais oficiais de comunicação com o governo ucraniano dificulta a repatriação dos corpos e o reconhecimento formal das mortes.

Enquanto isso, familiares seguem em busca de respostas, apoio consular e medidas que possam evitar o aliciamento de mais jovens para o que chamam de “turismo de guerra”. Organizações civis e entidades de direitos humanos têm alertado para os riscos da participação civil em conflitos internacionais sem respaldo governamental.



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