COP30 atrai investimentos para o Pará, que terá vitrine global para sua estratégia de desenvolvimento sustentável

Estado conta com a Floresta Amazônica para que avanço na economia se reflita nos indicadores sociais.

Porto Velho, RO -
Com uma economia baseada em commodities minerais e agropecuárias, cuja produção e preços seguem em alta por conta da demanda externa, o Pará vem experimentando uma pujança econômica nos últimos anos.

Seu PIB, de R$ 262,9 bilhões em 2021, cresce acima da média nacional, é o décimo do país e corresponde a 46,2% do total da Região Norte. Essa prosperidade, no entanto, não se reflete na qualidade de vida da população paraense: o estado é o 23º (de 27) no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com graves problemas em infraestrutura, saneamento e educação.

As perspectivas de alteração do cenário estão ancoradas no maior patrimônio natural do estado, a Floresta Amazônica. O seu uso sustentável como propulsor de desenvolvimento econômico está na agenda do governo local, do Brasil e do resto do mundo — e será um dos temas centrais da 30ª Conferência da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP30), que vai acontecer em Belém em novembro de 2025.

Floresta degrada no Pará: COP30 será tribuna inevitável para que se discutam mazelas ambientais do estado — Foto: Divulgação/Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

A realização da COP30 já está ligada a uma série de investimentos no estado, em áreas como o turismo e a infraestrutura, e marca a decisão política de adoção de uma economia verde. Ao mesmo tempo, será uma tribuna inevitável para que se discutam mazelas ambientais do Pará, que refletem alguns dos principais desafios do Brasil no setor, como a ampliação do saneamento, o combate ao garimpo ilegal e a adoção de práticas que minimizem os efeitos da exploração de seus recursos no subsolo.

A reboque da COP30, o Pará vai receber mais de R$ 40 bilhões em investimentos, a maior parte para obras do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas também empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para projetos que almejam deixar um legado social e ambiental para a população.

— É uma agenda prioritária para o banco. Temos nos colocado como um ator estratégico na organização da COP30 — diz Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho, na Cúpula da Amazônia — Foto: Leo Bahia/Fotoarena/Agência O Globo

O banco já liberou R$ 3,15 bilhões em empréstimos para o governo do Pará, dos quais R$ 1,8 bilhão está “mais encaminhado”, segundo a diretora — o restante ainda depende da apresentação de novos projetos pelo governo paraense, que prevê o início de todas as obras em maio e a sua conclusão até agosto de 2025.

— A grande maioria desses investimentos não diz respeito diretamente ao evento. São ações estruturantes para Belém. Por exemplo, R$ 850 milhões são para macrodrenagem de áreas vulneráveis em torno do Centro. São vilas, áreas de comunidades que têm sofrido com inundação. Vai beneficiar mais de 300 mil pessoas — diz Campello.

A diretora do BNDES cita ainda R$ 650 milhões para infraestrutura urbana da capital (conectividade e equipamentos culturais que serão utilizados na COP30) e R$ 314 milhões para abastecimento de água.

Segundo maior estado em extensão e nono em população (8,1 milhões de habitantes), o Pará tem menos da metade dos domicílios abastecida pela rede de água e menos de 20% ligados à de esgoto, muito abaixo da média nacional. Seu ensino médio é o pior do país (27º colocado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), e o fundamental não é muito melhor (23º no ranking). A taxa de informalidade do trabalho é a segunda maior do Brasil (57,4%, segundo o IBGE).

Novas economias

Esses números contrastam com os da economia. Em 2021, o PIB teve crescimento nominal (com os valores não ajustados pela inflação) em 134 dos 144 municípios do Pará, segundo a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e o IBGE. Mais de 50% dele, no entanto, estão concentrados em cinco cidades, das quais apenas Belém não tem a economia baseada na mineração.

— A economia paraense tem um perfil que concentra a riqueza nas mãos de poucos, particularmente a mineração. Temos trabalhado para o incremento de novas economias, e particularmente, para a agenda verde — diz o governador Helder Barbalho (MDB), que está em seu segundo mandato. — Este novo modelo envolve fundamentalmente a agricultura familiar, o apoio a este cultivo que trabalha a regeneração, mas, ao mesmo tempo, a produção, e fará com que as atividades rurais tenham maior impacto social — prevê.

O governador Helder Barbalho — Foto: Ag. Brasil

Gargalos históricos

Especialistas apontam os gargalos históricos da infraestrutura como principais obstáculos ao desenvolvimento do Pará. São justamente eles que o Novo PAC pretende atacar, com R$ 23,2 bilhões a serem investidos em 88 empreendimentos exclusivos no estado, com obras em rodovias e hidrovias, portos e aeroportos, escolas e unidades básicas de saúde.

— Nós geramos muita riqueza, mas pouco dela fica (no estado). É um paradoxo que precisamos superar: transformar as riquezas dessa economia extrativista em melhoria da qualidade de vida dos paraenses, coisa que ainda ocorre de forma muito incipiente — diz Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa).

Ele continua:

— A precariedade da infraestrutura atrapalha sobremaneira o desenvolvimento humano. Estamos diante de uma oportunidade. Superar esses gargalos vai espraiar muito mais os recursos vindos da mineração e do agronegócio. Vai atrair mais indústrias e novos negócios que proporcionarão a agregação de valor necessária para que a riqueza se internalize mais.

Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) — Foto: Divulgação/Fiepa

Especialistas apontam que a escolha do Pará como sede da COP30 — depois de sediar, no ano passado, a Cúpula da Amazônia — também está ligada à agenda ambiental adotada pelo governo estadual ainda no primeiro mandato de Helder Barbalho. Em sua gestão, foram criadas a política estadual de mudança climática e o plano estadual Amazônia Agora, com foco na redução do desmatamento, que responde por 90% das emissões de gases do Pará e caiu 21% no ano passado.

O governador também negociou com o BID um financiamento de US$ 300 milhões para o projeto Descarboniza Pará, que visa atingir emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2050, por meio de políticas econômicas, ambientais, sociais e climáticas.

— Temos visto, ano após ano, o Pará ganhando protagonismo na agenda ambiental. Não é à toa que ele vai sediar a COP30 — diz o economista José Otavio Passos, diretor para a Amazônia da ONG The Nature Conservancy, que apoia o governo paraense em algumas iniciativas no setor.

Na visão de Passos, o legado da COP, mais do que a infraestrutura, será a valorização das soluções naturais, que colocam a floresta e as pessoas no centro da resolução da crise climática.

— Quando falamos em mudança de paradigma dos modelos produtivos, isso significa não só extrair, mas valorizar os outros benefícios que aquela produção gerou — diz Passos, citando, além dos produtos gerados, o sequestro de carbono e a preservação da biodiversidade. — Um evento como a COP deverá jogar luz sobre essas soluções.

Eugênio Pantoja, diretor de Políticas Públicas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), ressalta que a preparação para a conferência do clima oferece uma oportunidade concreta, com recursos e prazos definidos, além de contexto político favorável, para enfrentar desafios ambientais. E defende que o diferencial competitivo do país está na Amazônia:

— Precisamos ter segurança jurídica, ambiental e fundiária, e uma visão de desenvolvimento econômico para além do desmatamento. Não é uma ação para reduzir um pilar importante da economia que já está estabelecido, que são as commodities. É a oportunidade de alavancar um outro pilar, o da bioeconomia, da valorização da floresta e dos serviços ambientais.


Fonte: O GLOBO
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