Porto Velho, RO - De Djalma Santos a Nilton Santos, passando por Carlos Alberto e Everaldo até chegar em Daniel Alves e Marcelo, escalar as duplas de laterais historicamente não costuma ser problema para os técnicos da seleção. Mas, a menos de dez meses para a Copa, esta é a principal dor de cabeça de Tite. É a posição com mais dúvidas.
O que não faltaram foram nomes testados dos dois lados no atual ciclo: 14. Até agora, só dois — Danilo e Alex Sandro, ambos da Juventus-ITA — podem ser considerados com um pé no torneio. Ainda assim, estão longe de serem unanimidade.
A indefinição é maior na direita. A ponto de Tite já ter convocado atletas de outras posições, como Éder Militão (Real Madrid), Fabinho (Liverpool) e Gabriel Menino (Palmeiras). Todos sem sucesso. Para os jogos contra Equador e Paraguai, pelas Eliminatórias, ele voltou a recorrer ao veterano Daniel Alves, que durante a Copa terá 39 anos.
Diante dos equatorianos, na última quinta, as expectativas estavam em Emerson Royal, que vem de boa temporada no Bétis e foi comprado pelo Tottenham. Só que a expulsão logo no começo impediu qualquer observação sobre o lateral-direito de 23 anos, suspenso do duelo desta terça contra os paraguaios.
Corrida pelos lados

Editoria de arte Foto: O Globo
Tite não está sozinho neste drama. Nos principais clubes do país, os treinadores também encontram dificuldade para ter homens de confiança pelos lados. Só que, no caso deles, é possível recorrer a estrangeiros. É o que ocorre, por exemplo, no Flamengo (com Mauricio Isla), no Fluminense (com Mario Pineida), no Palmeiras (com Piquerez) e no Internacional (acertado com Fabricio Bustos).
Não é possível explicar em um único motivo a crise de laterais da atual geração. Mas quem trabalha com futebol, principalmente com formação, vê algumas mudanças ocorridas nos últimos anos que deram mais importância a outras posições na base.
O uso dos três atacantes, que voltou a ser tendência mundial na década passada, é uma delas. Trouxe de volta a figura dos atacantes de lado, que passaram a ocupar um espaço onde os laterais sempre se destacaram. Atenta ao mercado, a base brasileira logo mostrou que era boa fornecedora de pontas. Vinicius Junior, Rodrygo e Antony são alguns.
E não foram só os pontas que o Brasil passou a priorizar. Com a evolução tática, meio-campistas também ganharam mais destaque. Saíram o cabeça-de-área e o dez clássico para a entrada daqueles que ocupam diferentes espaços e atuam tanto na recomposição defensiva quanto no avanço. E os chamados volantes modernos passaram a ser revelados aos montes.
— Aqui no Palmeiras nós temos o Gabriel Menino, o Danilo e o PK (Patrick de Paula). São meio-campistas que marcam e jogam. Você viu isso na Alemanha campeã do mundo também. Não tem mais o meia clássico ou o volantão. São jogadores polivalentes, completos, que tanto defendem como sabem atacar — opina João Paulo Sampaio, coordenador da base palmeirense.
Aqueles que hoje chegam ao profissional ainda precisam lidar com outra questão. Para se proteger dos times que avançam explorando os lados do campo, linhas defensivas com cinco e, às vezes, até seis homens tornaram-se comuns.
— A forma como se tem jogado hoje o futebol, muito intenso e com espaços curtos, atrapalhou a forma dos nossos laterais jogarem — analisa Jorginho, lateral da seleção campeã do mundo em 1994 e hoje treinador, que aponta também a perda da ênfase em treinos analíticos, que valorizam a execução de movimentos, em detrimentos dos posicionais.
Erasmo Damiani, gerente da base do Atlético-MG, acrescenta um fator comum à formação de jogadores em geral. Torneios sub-17 e sub-20 se multiplicaram no país e nas TVs. Com a maior atenção da torcida veio uma cobrança por resultados que não condiz com a ideia principal das categorias inferiores: formar.
— Pensa-se mais no jogo de quarta, do domingo. Ganhar não é mais consequência. E quando você pensa assim, não dá tempo de explorar algumas coisas, de ensinar fundamentos.
Fonte: O Globo