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| Acordo firmado entre Prefeitura e Incra busca destravar a regularização fundiária de áreas urbanas e rurais ocupadas há anos em Porto Velho (Foto Marcelo Gladson - Alô Rondônia) |
Porto Velho (RO) – A assinatura de um acordo entre a Prefeitura de Porto Velho e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reacende uma pauta antiga e sensível para milhares de famílias da capital: a regularização fundiária de áreas urbanas e rurais ocupadas há décadas sem escritura definitiva.
Na prática, o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) permite que o município passe a atuar diretamente em processos de regularização de imóveis que ainda pertencem formalmente à União, mas que já estão ocupados e integrados ao tecido urbano ou rural. A iniciativa insere Porto Velho no programa federal Terra Cidadã, voltado à governança fundiária.
O tema, no entanto, vai além da assinatura de um termo administrativo e levanta questionamentos importantes sobre prazos, critérios, custos e alcance real da medida.
UMA
DEMANDA HISTÓRICA QUE AFETA BAIRROS INTEIROS
Porto Velho cresceu sobre áreas que, décadas atrás, tinham perfil rural e estavam sob domínio do Incra. Com o avanço urbano, bairros inteiros se consolidaram sem que a situação jurídica da terra fosse resolvida.
Regiões como Nova Esperança, Lagoa, Estrada da Areia Branca, São Roque e parte do bairro Planalto são citadas como exemplos de áreas onde vivem milhares de famílias que, apesar de possuírem casas construídas e vida comunitária estabelecida, ainda não têm escritura definitiva.
A falta desse documento gera uma série de limitações: imóveis não podem ser financiados, vendidos formalmente ou usados como garantia; serviços públicos enfrentam entraves legais; e moradores convivem com insegurança jurídica permanente.
O QUE O ACORDO PROMETE — E O QUE ELE NÃO GARANTE
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Programa federal de regularização fundiária que pode beneficiar milhares de famílias sem escritura definitiva. (Fotos Reprodução: Júnior Costa) |
Isso não significa, porém, que a regularização será automática.
Cada área ainda precisará passar por análises técnicas, ambientais e jurídicas. Terrenos com conflitos, sobreposição de registros, restrições ambientais ou pendências documentais podem enfrentar atrasos ou até inviabilidade de regularização.
Outro ponto que ainda carece de clareza é a ordem de atendimento: não foi divulgado um cronograma público por bairro nem os critérios que definirão quais famílias serão atendidas primeiro.
O IMPACTO REAL PARA O MORADOR COMUM
Para quem vive em áreas irregulares, a regularização pode representar mudanças concretas:
- acesso a crédito bancário e financiamentos habitacionais;
- valorização do imóvel;
- possibilidade de venda legal ou herança;
- maior estabilidade contra disputas judiciais;
- facilidade para regularizar água, energia e outros serviços.
Por outro lado, especialistas alertam que o processo também pode trazer novos custos ao morador, como taxas, impostos e eventuais exigências de adequação ambiental ou urbanística — pontos que ainda não foram detalhados de forma transparente.
MUDANÇAS
NACIONAIS NO INCRA PODEM ACELERAR — OU COMPLICAR
Paralelamente ao acordo local, o Incra anunciou mudanças nas regras nacionais de regularização fundiária por meio da Instrução Normativa nº 153. A norma unifica documentos e cria um sistema que reúne dados fundiários e ambientais em uma única plataforma.
A promessa é de menos burocracia e mais agilidade, especialmente na Amazônia Legal. Na prática, porém, a centralização de dados também pode tornar o processo mais rigoroso, já que pendências ambientais ou inconsistências cadastrais passam a ser cruzadas automaticamente.
Ou seja: enquanto alguns processos podem avançar mais rápido, outros podem enfrentar novos entraves.
GANHO PARA O MUNICÍPIO, DESAFIO PARA A EXECUÇÃO
Do ponto de vista da gestão pública, a regularização amplia a base de arrecadação, com incidência de impostos como IPTU e ITBI, e permite maior controle sobre o ordenamento urbano.
Para a população, o benefício só se concretiza se o processo for conduzido com transparência, critérios claros e comunicação direta com os moradores, algo que ainda não foi apresentado de forma detalhada.
ENTRE EXPECTATIVA E REALIDADE
A assinatura do acordo representa um avanço administrativo, mas não resolve, por si só, um problema construído ao longo de décadas. O sucesso da iniciativa dependerá menos do discurso político e mais da capacidade de transformar termos técnicos em escrituras entregues.


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