Mão de um homem negro em posição de punho fechado — Foto: Reprodução/EPA. ///Com alta taxa de injúria racial, estado vê crescer iniciativas educacionais antirracistas lideradas por vítimas do preconceito
Porto Velho, Rondônia - “Cortou o cabelo, agora está parecendo gente”. A frase, dita dentro da biblioteca da Universidade Federal de Rondônia (Unir), foi o estopim para uma profunda crise emocional e o início de uma caminhada de resistência para Pedro Paulo Almeida Martins, servidor público, bibliotecário e pesquisador. A agressão verbal, que se somou a outras ofensas relacionadas à sua aparência, origem e religião, desencadeou um processo judicial por injúria racial — crime previsto no Código Penal Brasileiro — e motivou a criação de uma pesquisa voltada à formação antirracista em escolas e bibliotecas.
Pedro relata que sofreu repetidas agressões no ambiente de trabalho, mesmo após a autora das ofensas admitir parte das frases e formalizar um pedido de desculpas. “Ela assumiu o que disse e pediu desculpas, porém os atos continuaram sendo reiterados. A injúria racial acabou se configurando como racismo”, afirma. As consequências foram severas: crises de ansiedade, depressão e afastamento das funções profissionais por recomendação médica.
Após intervenção judicial, Pedro foi transferido temporariamente para outro estado, mas conseguiu retornar a Porto Velho. Hoje, além de atuar como bibliotecário, está concluindo o mestrado em educação, com uma linha de pesquisa voltada à formação de professores e bibliotecários como agentes de práticas antirracistas no ambiente educacional.
“O intuito é trabalhar com a educação, diretamente com os profissionais, para internalizar práticas educacionais antirracistas e, com isso, evitar condutas discriminatórias no cotidiano das instituições”, explica o pesquisador.
Apesar de possuir três graduações, quatro pós-graduações e estar prestes a concluir o mestrado, Pedro afirma que a discriminação persiste inclusive em espaços institucionais. “Um dia eu estou bem, um dia não estou. As feridas continuam. É uma luta diária para ressignificar tudo isso como pessoa. Mas eu não tive medo de denunciar, de expor”, desabafa.
Dados preocupantes em Rondônia
Rondônia está entre os três estados com maior taxa de injúria racial no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, são 18,9 casos para cada 100 mil habitantes, índice superado apenas por Santa Catarina e Distrito Federal.
O dado chama atenção especialmente pelo perfil demográfico da região. De acordo com o Censo 2022, a Região Norte — onde Rondônia está inserida — tem 67,2% da população autodeclarada parda, reforçando o paradoxo entre representatividade e violência racial.
O papel da Justiça na promoção da equidade
Diante do cenário, o Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) tem adotado políticas para enfrentar o racismo institucional. Entre as ações estão:
Reserva de vagas para pessoas negras em cargos comissionados e contratos;Banco de talentos com 149 profissionais pretos e pardos;
Bolsas de estudo voltadas à população negra;
Capacitações sobre diversidade e antirracismo para servidores e magistrados.
Mais de 1 mil servidores e 33 magistrados participaram das formações nos últimos 12 meses. Atualmente, mais da metade dos cargos comissionados do TJRO são ocupados por pessoas pretas ou pardas. As ações renderam reconhecimento nacional e integram a lista de programas concorrentes ao Prêmio Innovare.
O Tribunal afirma que os projetos buscam consolidar uma cultura institucional antirracista, promovendo igualdade de oportunidades e um atendimento mais humanizado às vítimas de racismo.