Dia Internacional dos Povos Indígenas: resistência linguística fortalece identidade do povo Cinta Larga

Indígenas Cinta-Larga — Foto: Marcela Bonfim/AmReal

Porto Velho, Rondônia  – No Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, a preservação das línguas originárias se reafirma como um dos principais instrumentos de resistência cultural no Brasil. Em Rondônia, o povo Cinta Larga se destaca por manter viva, de forma predominante, a língua Tupi-Mondé nas aldeias, passando esse conhecimento de geração em geração.

Entre os protagonistas desse movimento está o jovem Itxalee OyGoyan Cinta Larga, de 18 anos, que desenvolveu um projeto para criar um dicionário bilíngue Tupi-Mondé/Português. A iniciativa foi apresentada na 23ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada na Universidade de São Paulo (USP), e recebeu três premiações nacionais. Segundo o estudante, a oralidade é parte inseparável do cotidiano nas comunidades.

“Dentro das aldeias, a língua é muito mais forte e preservada. A oralidade está presente em todos os momentos”, afirma Itxalee.

O Tupi-Mondé é falado por quatro etnias em Rondônia: Cinta Larga, Paiter-Suruí, Zoró e Gavião. Para o jovem, preservar o idioma significa mais do que manter palavras vivas; é proteger a história, a cultura e a forma de ver o mundo de seu povo.

A importância da preservação

Edir Cinta Larga, professor licenciado em Ciências Sociais, estima que 98% dos membros da etnia ainda falam a língua materna. Ele observa que uma minoria — cerca de 2% —, formada por indivíduos mestiços, não utiliza o idioma no dia a dia, embora consiga compreendê-lo.

“Perder a linguagem é perder sua identidade. Sem ela, não há como se identificar com a etnia, nem transmitir conhecimentos tradicionais”, ressalta Edir.

A ameaça de extinção de línguas indígenas é uma realidade global. Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontam que, a cada duas semanas, uma língua originária desaparece no mundo. O impacto, segundo especialistas, é irreparável: junto com o idioma, perdem-se conhecimentos sobre o meio ambiente, medicina tradicional, manejo da floresta e espiritualidade.

Diversidade linguística e visões de mundo

A língua Cinta Larga integra a família linguística Tupi-Mondé, pertencente ao tronco Tupi. Para Edir, sua singularidade está na maneira própria como a comunidade denomina e descreve elementos da realidade. O povo se divide em três subgrupos — Mãn, Kaban e Kakin —, cada um com variações linguísticas próprias, o que reforça a riqueza cultural e a pluralidade interna.

“Cada subgrupo nomeia o mundo à sua maneira, e isso mostra como a língua molda nossa visão de mundo”, destaca o professor.

Resistir para existir

O exemplo do povo Cinta Larga reforça que a preservação linguística é também um ato de resistência. Ao manter viva a língua Tupi-Mondé, a comunidade garante a continuidade de um patrimônio imaterial que sobrevive há milênios, apesar das pressões externas e das mudanças sociais.

Celebrar o Dia Internacional dos Povos Indígenas, portanto, é reconhecer que a diversidade cultural do Brasil depende da proteção dos saberes e tradições das comunidades originárias — e que a língua é a chave para manter essa herança viva.

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