Sebastião Melo reconhece falhas no sistema antienchentes, diz que pauta ambiental não é tema central nas eleições e critica ‘grenalização’ da política gaúcha com atual crise

Porto Velho, Rondônia - O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB-RS), fala sobre a crise provocada pela maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. Ele reconhece falhas no sistema de drenagem e prevenção de enchentes da capital, muito criticado por conta da pane nas estações de bombeamento, afirma que a pauta ambiental não é um tema central em eleições no Brasil e critica o que define como "grenalização" da política gaúcha em meio à catástrofe.

Um mês depois do início da tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, o senhor considera que há uma autocrítica a fazer do seu trabalho à frente da prefeitura de Porto Alegre?

Penso que agora não é a hora de buscar culpados, mas a autocrítica deve ser minha e dos presidentes, governadores e gestores que nos antecederam. Vi manifestações de ex-prefeitos e não vou aceitar provocações. Estamos no meio de uma tragédia e eles estão preocupados com eleição. A verdade é que nunca houve uma campanha municipal, estadual ou federal que colocasse a questão climática como tema central no Brasil. Precisamos fazer uma reflexão sobre isso.

A classe política ignora a pauta ambiental porque não rende votos?

Acho que a autocrítica também tem que vir da própria sociedade. Um exemplo: o orçamento participativo hoje é um dos grandes instrumentos da cidade. A gente consulta as pessoas se preferem obras de drenagem ou de asfalto, e votam pelo asfalto. A tragédia que aconteceu no Rio Grande do Sul poderia ter acontecido no Rio de Janeiro, na Grande São Paulo ou em Belo Horizonte. O crescimento desordenado e uso inadequado do solo urbano está dentro desse processo.

Como pregar essa preocupação ambiental estando alinhado ao bolsonarismo, grupo político que em grande parte rejeita o aquecimento global e que indicou o seu vice?

Quem conhece a minha história sabe que sou um democrata, dialogo com todas as forças políticas e faço alianças. Acho que a questão ambiental não pode ficar no discurso nem da direita nem da esquerda, mas vir para a realidade. A ideologia não resolve o problema das cidades, mas, sim, a gestão e as políticas públicas.

Falando de gestão, o governador Eduardo Leite disse em entrevista ao GLOBO há duas semanas que era preciso refletir se houve um problema de manutenção do sistema antienchentes de Porto Alegre ou se há uma questão na concepção do projeto décadas atrás. O senhor já tem uma resposta?

Li a entrevista, mas acho que ele é governador de todos os municípios e com certeza deveria fazer uma autocrítica do sistema do Rio Grande do Sul como um todo. Porto Alegre não foi a única cidade atingida pelas chuvas. 

É importante dizer que não se protege a nossa cidade sem tratar de Canoas, São Leopoldo, Eldorado e da Lagoa dos Patos. De fato, o sistema da capital foi concebido na década de 60 e nunca havia chegado a essa gravidade climática. Testado, apresentou problemas nos diques e as casas de bombas que estavam funcionando deixaram de operar quando foram tomadas pelas águas. Além disso, no muro da Mauá, houve falhas em três portões de comportas. Então, sim, tudo precisa ser revisto no futuro.

O governo nomeou Paulo Pimenta para a Secretaria Extraordinária para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul e ele criticou a sua ideia das ‘cidades provisórias’ em quatro bairros. Como responde a isso?

É fácil ser contra cidade provisória, mas para onde essas pessoas irão? Quem faz a crítica deveria apontar o caminho. É hora de encontrar alternativas.

A escolha de Pimenta, um possível candidato ao governo do Rio Grande do Sul em 2026, foi um erro de Lula?

Se ele vai ser candidato ou não, é um direito que ele tem, assim como todos que estão envolvidos aqui. Vejo com naturalidade a nomeação, acho mais importante que ele resolva os problemas. Tenho tido relação com Pimenta e todos os demais ministros de forma muito republicana. A questão habitacional é a mais aguda e é a que eu tenho insistido com o presidente Lula. 

Estou falando de 30 mil pessoas desabrigadas e não sei quantas terão casas para voltar porque ainda tem muita água na cidade. Além disso, inscrevemos no PAC 3 projetos de macrodrenagem em cinco áreas de Porto Alegre e todos foram indeferidos. Sei que não tem dinheiro infinito, mas estou pedindo revisão agora. Até porque o artigo 21 da Constituição diz que o sistema de cheias das cidades é uma responsabilidade do governo federal.

É azeitada essa relação entre o senhor que é do MDB, o governador Eduardo Leite, do PSDB, e o governo federal, tocado pelo PT?

Cada um tem os seus papeis aqui que se complementam, mas há militantes políticos querendo fazer ativismo neste momento. Vivemos o que chamamos aqui de “grenalização” da política do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, que é a transposição da disputa entre Grêmio e Inter para o dia a dia do jogo partidário. Colorados torcem muito mais para gremistas perderem que para vencer e vice-versa. Cansei de ver cartazes com “a culpa é do Melo”.

Mas não houve momentos na crise que o senhor se comunicou mal como quando disse que “não tem o poder de regular as chuvas e as águas que chegam ao Guaíba”?

A solidão do poder é sempre grande para o governante. Todo mundo dá opinião, mas é você que toma as decisões que muitos vão concordar e outros discordar. Durante o último mês, os mesmos que me criticaram por não fechar as escolas em um determinado momento da crise agora me criticam por ter feito isso na semana passada após a previsão de novas chuvas. Nos últimos trinta anos, não tinha visto ainda tanto jornalista e engenheiro dando opinião sobre enchentes.

Afinal, quando a vida voltará ao normal em Porto Alegre?

Estamos indo por etapas, ainda na limpeza da cidade que devolve um pouco da normalidade. A retomada econômica e a transição das pessoas que estão nos abrigos para uma moradia são os outros dois fatores fundamentais para dar um passo adiante. 

Nós temos ainda umas vinte mil pessoas sem energia e problema de abastecimento em 15 dos 93 bairros. Noite e dia e dia e noite estamos trabalhando para devolver a normalidade da cidade, mas não dá para estabelecer se voltaremos ao normal em um mês, dois meses ou 70 dias, mas já tivemos um avanço importante.

Quanto estima que ainda irá gastar com a recuperação da cidade?

Nós ainda não remetemos o documento ao presidente Lula porque ele sempre será parcial. Nós, do dinheiro público municipal, já gastamos em torno de R$ 130 milhões e ainda temos R$ 120 milhões para gastar. O gasto maior é com a limpeza, que vai custar mais de R$ 100 milhões ao final do processo. Tivemos muitas despesas, mas posso dizer que vamos falar de bilhões para recuperar a cidade.

Defende que as eleições municipais sejam adiadas?

Sou contra. Teve Covid e a eleição aconteceu sem problemas em 2020.


Fonte: O GLOBO