Além da locomoção da população, as barreiras prejudicam a economia local, cujos setores não têm conseguido escoar sua produção

Porto Velho, Rondônia - Cerca de um mês após o início das chuvas no Rio Grande do Sul, pelo menos 73 pontos de estradas federais ou do estado ainda estão bloqueados total ou parcialmente, segundo autoridades de transporte. Além da locomoção da população, as barreiras afetam a economia local, cujos setores não têm conseguido escoar sua produção, sobretudo os da região leste, onde se encontra o polo industrial do estado. Especialistas alertam ainda para as dificuldades de acesso ao Porto de Rio Grande, que liga a Lagoa dos Patos ao oceano.

Até quarta-feira, a Secretaria de Logística e Transportes (Selt) contabilizou 68 trechos com bloqueios totais ou parciais ativos em 41 rodovias, entre estradas estaduais, pontes e balsas. No pior momento desde o começo das chuvas, a pasta registrou 170 pontos de bloqueios em 79 rodovias, de 97 municípios do Rio Grande do Sul.

O governo estadual estima um prejuízo preliminar de cerca de R$ 3 bilhões em rodovias e pontes estaduais destruídas pelos temporais. A Selt aponta que “trabalha intensamente em várias frentes para liberar as vias o mais rápido possível”.

A pasta explica que é prematuro fazer um mapeamento detalhado das rotas mais afetadas ou das que podem ser usadas como alternativa diante das obstruções entre Porto Alegre e outras grandes cidades do estado. A secretaria recomenda que a população utilize o mapa interativo disponibilizado no site da pasta que permite o acompanhamento, em tempo real, da situação dos bloqueios.

Impacto econômico

Já o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) estima que foram danificados aproximadamente 307 quilômetros dentre os 4.800 quilômetros de rodovias federais do estado administrados pelo órgão. A pasta chegou a identificar 47 pontos de bloqueio total no período, “motivados por diferentes causas como alagamentos de pista, deslizamento de encostas e rompimento de pavimento”. 

Na quarta-feira, contudo, cinco pontos ainda estavam totalmente bloqueados na BR-116 e na BR-470. O número de bloqueios parciais não foi informado à reportagem pela esfera federal, embora sejam diariamente atualizados no mapa interativo

Segundo o Dnit, o trecho entre os municípios Veranópolis e Bento Gonçalves da BR-470 foi o mais danificado. Uma Medida Provisória (MP) do governo federal prevê que, inicialmente, serão investidos cerca de R$ 1,2 bilhão para recompor as vias federais no estado. Para além da dificuldade no trânsito e a destruição nas cidades, o impacto das chuvas fez com que famílias passassem a viver em barracas improvisadas e carros na margem de rodovias, como a BR-290.

Entre as rotas federais que passam pela Serra Gaúcha, a que sofreu maior destruição foi a BR-116. Há trecho em que empresários locais se mobilizaram para fazer obras de recuperação. Maior estrada do país, ela corta o polo mecânico de Caxias do Sul e ainda passa pelas áreas industriais da Região Metropolitana, atravessando Novo Hamburgo, São Leopoldo, Gravataí, Canoas e Porto Alegre.

— A região leste do estado, que passa pela Serra Gaúcha, corresponde a 5% do PIB nacional. Os bloqueios nas estradas se somam às dificuldades diretas e indiretas que os empresários estão enfrentando, principalmente no escoamento e chegada de produtos — avalia Gustavo Inácio de Moraes, professor da Escola de Negócios da PUC-RS.

O especialista aponta também que obstruções ao longo da BR-392 nas últimas semanas provocaram dificuldades de acesso ao porto marítimo de Rio Grande. Com isso, o que é produzido a Oeste da Serra gaúcha — onde ocorre a produção agrícola — e na Região Metropolitana, não é escoado de forma adequada, provocando atrasos no embarque nos navios.

— A dificuldade da safra do Rio Grande do Sul chegar ao consumidor final, em todo o país, provoca aumento dos preços nos mercados, além de dificuldades na balança comercial brasileira, no campo das exportações. Dificilmente teremos uma normalização dessa situação nos próximos seis meses — calcula Moraes.

Para André Moreira Cunha, vice-diretor da faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), a ruptura dos sistemas de transporte deve provocar “uma queda intensa de renda em maio e nos meses seguintes”. O professor avalia que uma recuperação posterior vai depender dos investimentos realizados.

— O maior problema no caso destas chuvas é que parte da produção não está ocorrendo. Lavouras foram perdidas e muitas empresas fecharam. O transporte é parte desta complexa equação — afirma Cunha.

A fábrica de chocolates Neugebauer, em Arroio do Meio, às margens do Rio Taquari, publicou um comunicado informando a possibilidade de atrasos no envio da produção. A empresa do ramo mais antiga do país afirma enfrentar problemas logísticos.

Importação de arroz

Responsável por 70% da produção nacional de arroz, o Rio Grande do Sul enfrenta prejuízos com a safra que ainda seria colhida, perdida na enxurrada, além da dificuldade de escoar o que tem no estoque. Diante desse cenário, a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) optou por importar 75 mil toneladas da Tailândia, que devem chegar ao país na primeira quinzena de julho. A decisão da indústria independe da tomada pelo governo federal de também comprar o grão de outros países a fim de frear a especulação de preços para o consumidor com as perdas no estado.

Na quarta-feira, pela primeira vez desde a madrugada de 3 de maio, o nível Guaíba, em Porto Alegre, ficou abaixo de 4 metros no Cais Mauá. Na medição de 20h, o nível estava em 3,89 metros, embora ainda acima da cota de inundação, que é de 3 metros, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA). O número de mortos pelas chuvas chegou a 162, conforme balanço de quarta à noite da Defesa Civil estadual. Ainda há 75 desaparecidos.


Fonte: O GLOBO