
Port6o Velho, RO - Um ataque xenófobo contra uma brasileira de 14 anos na frente da escola em que ela estuda, em Santarém, na região do Ribatejo, em Portugal, marca mais um episódio de violência sofrida por brasileiros no país europeu. Portugal registrou em 2023 um aumento de queixas de 833% em relação a 2017, ano em que a comunidade brasileira voltou a crescer no país.
A agressão mais recente foi filmada por outros alunos do colégio e viralizou ao ser compartilhada nas redes sociais e transmitida pelos jornais locais. Uma das pessoas surpreendidas pela violência foi a mãe da vítima, a brasileira Lucélia Marília Oliveira. Segundo disse ao Portugal Giro, ela estava no restaurante onde trabalha quando foi alertada.
— Estava no restaurante e disseram: 'Marília, olha a tua filha na TV'. Senti vergonha. Quando vi o vídeo, que já havia recebido sem saber que era minha filha, fiquei desesperada. Fomos ao hospital e tenho o laudo. Minha filha está com hematomas e não quer sair de casa, com vergonha. A escola sugeriu que fique em casa até quarta-feira. Ela chora direto porque vê na TV, foi noticiado em todos jornais — disse Oliveira.
O caso da jovem ocorreu poucas semanas após um outro episódio marcado pela violência física em terras portuguesas, quando o casal de brasileiros Bruno Marcelino e Kaique dos Santos Soares foram agredidos por dez pessoas em Vila Nova de Gaia. Os dois voltavam de uma festa brasileira na cidade vizinha ao Porto.
Bruno Marcelino foi agredido em Vila Nova de Gaia — Foto: Arquivo pessoalSegundo a Polícia de Segurança Pública (PSP), seis suspeitos foram “interceptados e identificados (cinco homens e uma mulher) com idades entre os 19 e 25 anos de idade, por terem sido indicados pelas vítimas como fazendo parte do grupo agressor”
“Acreditamos que tudo foi motivado por xenofobia, homofobia e racismo, que está cada vez mais evidente aqui em Portugal”, escreveu Marcelino em uma rede social.
'Invadindo Portugal'
O caso chama atenção para outras situações semelhantes que passaram a ocorrer em Portugal em intervalos de tempo cada vez menores. Em novembro de 2023, uma brasileira de 35 anos filmou o momento em que uma portuguesa profere insultos contra ela, enquanto aguardava um voo para Barcelona, na Espanha.
Na ocasião, a vítima contou que o confronto começou após a mala de uma amiga da portuguesa cair em seu pé. “Doeu? É problema seu”, respondeu a portuguesa, antes de começar a ofendê-la e dizer que ela “não era bem-vinda” em Portugal. Um vídeo gravado pela brasileira registrou as ofensas.
A brasileira prometeu processar uma portuguesa, que havia dito que brasileiros "estão invadindo Portugal" e chamou a população de “raça de filhos da puta”. Após o episódio, ela lembrou que tem cidadania italiana, mora na Europa há 7 anos e 3 meses, e disse ao "Gazeta Bragantina" que nunca havia passado por nenhuma situação semelhante.
— Viajo pela Europa há anos e nunca passei por nada parecido. Precisei voltar à Barcelona por conta do trabalho, mas pretendo tomar providências para que isso não volte a acontecer, não apenas comigo, mas com todos os brasileiros que vivem e trabalham aqui — destacou a vítima.
Ainda no ano passado, em maio, outros três brasileiros foram alvo de violência física e tortura em um bar da capital portuguesa. O cearense Jefferson Gomes Tenório, de 29 anos, e seu namorado, o também brasileiro Luís Almeida, de 30, estavam na boate Titanic Sur Mer, na região do cais do Sodré, acompanhados da prima de Luís. Após um desentendimento, segundo Jefferson, que mora em Portugal, mais de oito seguranças os espancaram.
Jefferson e seu companheiro, Luís — Foto: ReproduçãoRecém-nascida retida em hospital
Em agosto de 2023, outro caso impressionante. A brasileira Isabela Burgos, de 25 anos, e seu marido acessaram a sala de parto do Hospital de Cascais Dr. José de Almeida, em Lisboa, para dar boas-vindas à filha. As horas que sucederam o nascimento, no entanto, foram de estresse.
A unidade hospitalar alegou “suspeita” de que a mãe poderia ter usado maconha — sustância descriminalizada no país desde 2001 — antes do parto, chamou a polícia e ameaçou retirar a guarda da criança, mesmo com resultado negativo após exames toxicológicos.
Mãe e filha só foram liberadas quando o caso já havia repercutido em redes sociais e na imprensa local. O casal planejava entrar com um processo judicial contra o hospital e, sobretudo, contra uma médica que se apresentada como chefe do departamento de pediatria.
Xenofobia em estacionamento
Em maio de 2022, um casal e seu bebê de um ano e meio foram agredidos em um estacionamento por oito homens na área metropolitana de Lisboa. Segundo a imprensa portuguesa, ele também sofreram ofensas racistas e xenófobas. Os agressores fugiram, mas os episódios teriam ficado registrados em fotografias tiradas pelo próprio brasileiro, de 30 anos.
Pessoas caminham no Cais do Sodré, em Lisboa — Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFPO primeiro agressor parou ao lado do carro dos brasileiros e disse expressões como “voltem para a sua terra e isto aqui não é o país de vocês”, de acordo com o Correio. Depois, outros sete homens chegaram em dois carros. A mãe do bebê teria sido derrubada com o filho no colo, que só não se machucou porque foi segurando por uma amiga no momento.
Xenofobia e discriminação contra brasileiros na Universidade de Lisboa em 2019 — Foto: Arquivo/reproduçãoDe acordo com a imprensa local, os brasileiros foram levados Hospital Beatriz Ângelo pelos Bombeiros. A mãe do bebê ficou com hematomas no pescoço após ser estrangulada, já o pai, teve fraturas no nariz e luxou a clavícula.
Fonte: O GLOBO