Após indicação ao STF, ataques gordofóbicos contra Flávio Dino crescem 30% nas redes

Levantamento da Arquimedes identificou 14,5 mil publicações de cunho preconceituoso contra o ministro da Justiça entre 25 de novembro e 1º de dezembro

Desde a indicação do ministro da Justiça, Flávio Dino, ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Lula (PT), nesta segunda-feira, os ataques gordofóbicos contra o senador licenciado cresceram 30% nas redes sociais. É o que mostra levantamento feito pela consultoria Arquimedes a pedido do GLOBO.

Ao longo da última semana, a Arquimedes identificou 14,5 mil publicações gordofóbicas contra Dino em três plataformas — X (antigo Twitter), Facebook e Instagram. Na semana anterior, porém, foram registrados cerca de 11,5 mil conteúdos contendo esse tipo de discriminação foram identificados pelos pesquisadores.

Em postagens curtidas por parlamentares da oposição como Carla Zambelli (PL-SP) e Marcos Pollon (PL-MS), Dino foi chamado de "comunista obeso" e "baleia". Uma fala da comentarista da emissora Jovem Pan, Paula Schmitt, também foi amplamente divulgada e elogiada por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Durante o programa "Linha de Frente", a jornalista afirmou que o ministro foi indicado à Suprema Corte por cumprir a "cota de obesidade".

— Os ataques já eram esperados pela visibilidade que Dino alcançou ao longo deste ano. No entanto, na ausência de elementos pejorativos relacionados a sua conduta, a estes perfis sobra apenas o caminho da ofensa, em especial, xingamentos gordofobicos — diz Pedro Bruzzi, pesquisador da Arquimedes.

Postagem gordofóbica contra Flávio Dino — Foto: Reprodução

Os ataques gordofóbicos a Dino começaram ainda no início do ano, quando tomou posse à frente do Ministério da Justiça. Em maio deste ano, o peso do ministro foi ironizado na tribuna da Câmara por Coronel Chrisóstomo (PL-RO).

— Vou falar daquele senhor, daquele senhor que está com sobrepeso. Ele declarou que STF e o governo vão regular a internet na marra. Rapaz, não tem culpa não, sobrepeso? Esse país é democrático. Ele não é comunista, se tu gosta de comunista, seu sobrepeso, vaza do país — afirmou, à época, o deputado, em referência ao PL das Fake News.

Há duas semanas, o próprio ex-presidente fez comentários sobre o peso de Dino. Ao ironizar uma decisão do Ministério Público Federal de acompanhar um inquérito da Polícia Federal que investiga se ele importunou uma baleia jubarte, o ex-mandatário aproveitou a ocasião para fazer um comentário contra o ministro:

—Todo dia tem uma maldade em cima de mim, a de ontem foi que estou perseguindo baleias. A única baleia que não gosta de mim na Esplanada é aquela que está no ministério, é aquela que diz que eu queria dar golpe, mas some com vídeos.

Estratégia política

Além de Flávio Dino, outros políticos foram alvo de publicações de cunho preconceito nas redes sociais. Durante as eleições de 2018, a ex-deputada federal Joice Hasselmann era constantemente criticada por seu peso, comportamento que se intensificou quando a parlamentar rompeu com Bolsonaro. Hashtags que a chamavam de "Peppa Pig", personagem de uma animação infantil vivida por uma porca, estiveram entre os assuntos mais comentados do Twitter em diversas ocasiões.

As ofensas eram turbinadas dentro e fora do plenário e com o aval de membros da família do ex-mandatário. Quando a então deputada contraiu Covid-19, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) chegou a dizer que não tinha conhecimento que a doença "pegava em porcos".

— O gabinete do ódio fazia montagens terríveis: pegavam meu corpo e deformavam, colocavam roupas de prostituta. Era algo que foi me machucando aos poucos ao ponto de me arrastar para uma depressão. Não podiam me chamar de corrupta ou incompetente, então me reduziam a apenas uma mulher gorda — relatou Joice Hasselmann ao GLOBO.

A paulista não foi a única a ser comparada com animais, e o processo de desumanização é apontado por especialistas como característico da gordofobia, preconceito que ainda não possui legislação própria — o que dificulta sua punição. O deputado federal Tarcísio Motta (PSOL-RJ) foi chamado de "porco humano" pelo deputado estadual Rodrigo Amorim (PTB-RJ) em discurso no plenário da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Amorim é processado por transfobia pela vereadora de Niterói Benny Briolly por tê-la chamado de "belzebu" nesta mesma ocasião.

O antropólogo Ricardo Tassilo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que este tipo de preconceito ocorre quando os adversários não têm argumentos para criticar:

— A gordofobia ocorre quando não é possível atacar as ideias, a dialética ou a retórica de alguém. Daí, o agressor parte para a subjetividade, para o corpo. Os parlamentares fazem esta violência com pessoas que tem experiência e sabem da liturgia do seu cargo, o que incomoda seus adversários. Neste contexto, emergem os estereótipos de que uma pessoa gorda não pode ser inteligente, digna.


Fonte: O GLOBO
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