Porto Velho, Rondônia - O Banco do Brasil (BB), uma das maiores instituições públicas do país, está no centro de um inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro, após receber um estudo que aponta seu suposto envolvimento no comércio de negros escravizados durante o século XIX. O documento, elaborado por 14 pesquisadores de universidades brasileiras e americanas, revela ligações entre diretores e acionistas do banco com traficantes de escravizados.
O procurador da República Julio José Araujo Junior invejou um ofício diretamente à presidente do BB, Tarciana Paula Gomes Medeiros, determinando um prazo de 15 dias úteis para que a instituição se manifestasse. O estudo, parte integrante do inquérito, detalha o suposto apoio do banco ao comércio ilegal de negros escravizados durante o século XIX.
O BB, criado em 1808 e reembolsado em 1853, teria vínculos diretos com traficantes de escravizados, beneficiando-se da dinâmica de circulação de crédito lastreada na propriedade escravizada. Os pesquisadores destacam que o banco cumpriu um papel singular na sustentação da economia mercantil escravista no Brasil.
O estudo revela que acionistas e diretores do BB tinham ligações diretas com a propriedade de escravos. O maior acionista individual, José Bernardino de Sá, barão e visconde de Vila Nova do Minho, foi um dos maiores traficantes do Atlântico Sul. O estudo menciona ainda outros nomes ligados ao tráfego de escravizados que ocupavam cargas na direção do banco.
O documento conclui que grande parte do capital que constituiu o Banco do Brasil provavelmente era proveniente do tráfico e dos negócios relacionados à escravidão. Os investigadores propõem a abertura de um diálogo sobre peças e reconhecimento dos erros cometidos no passado.
O Banco do Brasil, em resposta, manifestou profundo lamento pelo capítulo infeliz da história e destacou que a escravização causou danos irreversíveis. A instituição ressaltou seu arquivo histórico aberto à pesquisa e reafirmou a disposição de prestar esclarecimentos e participar de iniciativas em prol da igualdade étnico-racial. O banco enumerou ações para promover a equidade racial, incluindo iniciativas de capacitação para funcionários de minorias representativas.
O MPF, por sua vez, já está em diálogo com a sociedade civil organizada, especialmente com ativistas do movimento negro, buscando ideias de reposição para serem propostas pelo banco à população afrodescendente.
Este inquérito destaca a importância de revisitar a história brasileira, reconhecendo o papel de instituições centenárias na perpetuação de práticas abomináveis e sublinhando a necessidade de enfrentar o racismo estrutural presente na sociedade atual.
Fonte: Agência Brasil
