
O resultado eleitoral de não marcará apenas o futuro político da Argentina, mas o pulso financeiro do curtíssimo prazo. Depois de decifrar o resultado da eleição presidencial, a próxima questão importante será o que acontecerá nesta segunda-feira com o dólar.
Neste sentido, a plataforma Portfolio Personal Inversiones (PPI) desenhou uma análise de acordo com quatro cenários possíveis: que o candidato liberal Javier Milei vença no primeiro turno; que haja um segundo turno entre Milei e o ministro da Economia, Sergio Massa; que tenha um segundo turno entre Milei e a candidata do Juntos pela Mudança, Patricia Bullrich ou, finalmente, que haja um segundo turno entre Bullrich e Massa.
Veja, na opinião dos analistas, como vai estar o mercado nesta segunda-feira, no day after das eleições e em qual cenário haverá maior ou menor impacto nas cotações.
1) Cenário Milei vence no primeiro turno
Caso esse cenário ocorra, espera-se um aumento nas taxas de câmbio livres, já que a principal proposta de Milei é dolarizar a economia. Como há poucos dólares e muitos pesos, a taxa de câmbio necessária para dolarizar seria superior aos atuais 900 dólares. Porém, o impacto direto dependerá do discurso do líder do La Libertad Avanza (LLA).
“Se Milei insistisse na proposta de dolarização, o CCL não teria teto, pois o mercado não acredita na capacidade de La Libertad Avanza obter recursos no exterior para dolarizar a uma taxa de câmbio semelhante à atual (que já é muito elevada em termos históricos) ”, diz o relatório do PPI.
“Se Milei atrasar a dolarização com eufemismos como ‘reformas de segunda geração’ ou ‘é um caminho de chegada de 24/36 meses’, a transição poderá ser menos caótica”, acrescentam.
Além de seu discurso, será esperado um aumento da taxa de câmbio formal para envio de moeda estrangeira ao exterior, e um aumento do hiato cambial, o que pressionará mais o Banco Central para começar a desvalorizar o valor oficial do dólar, ainda em US$ 350 desde as eleições primárias.
A outra questão que os agentes económicos veem em relação a Milei é a sua capacidade de alcançar a governabilidade, uma vez que ainda não demonstrou que tem uma equipe suficientemente grande e preparada para tomar as rédeas do Estado.
“A nível político, se adotar um tom de moderação e construir pontes para Juntos pela Mudança, poderá melhorar as perspectivas de governação e reduzir a percepção de fraqueza política”, afirma o PPI.
2) Cenário de segundo turno entre Milei e Massa
Caso esse cenário ocorra, Milei deve continuar insistindo no discurso da dolarização, pois coloca mais pressão sobre o dólar e isso prejudicará a percepção do partido no poder nas quatro semanas que separam as eleições gerais do segundo turno (19 de novembro)”, diz o relatório.
O candidato e ministro da Economia, por sua vez, buscará evitar outro salto discreto no câmbio oficial e sua equipe reiniciará as desvalorizações periódicas. “Haverá também maiores regulamentações e obstáculos tanto no mercado cambial como nos dólares financeiros, o que, em qualquer caso, implicará que a drenagem das reservas continuará”, afirmaram no PPI.
Tanto neste cenário como no anterior, espera-se uma aceleração da inflação, devido ao impacto nos preços da subida das taxas de câmbio paralelas, num contexto de reservas escassas no Banco Central.
“Neste cenário esperamos que a situação atual continue sem coordenação, com Massa deteriorando ainda mais a herança em termos fiscais e cambiais, e Milei sem incentivos para dar maiores detalhes sobre o seu programa”, analisou, por sua vez, a consultoria Anker.
3) Cenário de segundo turno entre Milei e Bullrich
“Este seria o segundo melhor cenário, pois garantiria alguma estabilidade”, afirma a plataforma de investimentos.
Porém, para que o efeito nos mercados financeiros seja menos volátil, a diferença de votos obtidos pelos dois candidatos será fundamental para determinar as probabilidades de cada um na segunda volta.
“Se a distância entre Milei (que deve ficar em primeiro lugar) e Bullrich for considerada como irreversível, os resultados tenderão para o primeiro cenário, com o candidato libertário ratificando a dolarização. Por se tratar de sua bandeira de campanha, entendemos que Milei não pode abandonar a proposta até ter certeza de que ocupará a cadeira de Rivadavia”, analisaram no PPI.
“Caso a distância entre Milei e Bullrich seja percebida como reversível tendo em vista o segundo turno, o dólar CCL (que permite trocar pesos por dólares no exterior e é considerado o melhor para estimar o valor real da moeda) poderá ser contido nos níveis atuais e até sofrer um certo declínio”, acrescentaram.
“Se Patricia Bullrich entrar no segundo turno seria uma surpresa positiva para o mercado; Hoje esse cenário eleitoral não se reflete nos preços dos ativos financeiros”, disse Javier Casabal, estrategista de renda fixa da Adcap Grupo Financiero.
4) Cenário de segundo turno entre Bullrich e Massa
Segundo a plataforma, este seria o melhor cenário para a transição, visto que “descartaria totalmente tanto a dolarização como um governo com má governança”, afirmaram.
“Como as pesquisas incipientes que investigam um possível segundo turno entre esses candidatos dão Bullrich como favorito, os resultados poderiam ser ainda mais auspiciosos que os do terceiro cenário, porque Massa colocaria um ‘piso’ nas propostas disruptivas”, acrescentaram. .
Para entender esse conceito, no mundo financeiro a premissa de que “o incerto é pior que o ruim” é muito relevante.
A consultoria Anker concordou: “Esse resultado esclareceria um fator de incerteza para o mercado hoje (o programa de Milei), mas manteria o incentivo para Massa continuar a deteriorar a herança”.
Fonte: O GLOBO