Morre Letizia Battaglia, fotógrafa que registrou a máfia italiana, aos 87 anos


Italiana registrou os brutais conflitos dos criminosos e os impactos deles na sociedade siciliana entre os anos 1970 e 1990

Porto Velho, RO - Morreu na última quarta-feira, aos 87 anos, em Palermo, Letizia Battaglia, fotógrafa mundialmente conhecida pelo corajosa documentação dos crimes da máfia de sua terra natal, a Sicília. A informação foi divulgada por Leoluca Orlando, prefeito da cidade de Palermo, onde ela nasceu. A causa da morte não foi revelada, mas, de acordo com a agência de notícias italiana Ansa, ela estava doente há algum tempo e usava cadeira de rodas para se locomover.

"Palermo perde uma mulher extraordinária, um ponto de referência. Letizia Battaglia foi um símbolo reconhecido internacionalmente no mundo da arte, uma bandeira no caminho da libertação da cidade de Palermo do governo da máfia", escreveu o prefeito no Twitter.

Montada numa Vespa e de posse de uma Leica, a Battaglia fotografou as brutais guerras entre os anos 1970 e 1990, mostrando assassinatos políticos e cadáveres em poças de sangue, jogados nas calçadas ou abandonados em zonas rurais. Recebeu diversas ameaças de morte ao longo da vida.


Foto feita Letizia Battaglia da prisão do chefão da máfia Leoluca Bagarella, em 1979, Foto: Divulgação/IMS

—Medo eu sempre tive, mas as fotos precisavam ser feitas. Palavras precisavam ser ditas contra a Máfia naquele momento — falou ela GLOBO, em 2018, época em que algumas de suas fotos foram expostas no Instituto Moreira Salles, no Rio. — Para mim, era importante que as fotografias também registrassem a emoção de quem estava atrás da câmera, que a minha presença fosse reconhecida ali.

Era igualmente famosa por retratar o impacto das organizações criminosas sobre os sicilianos, de um menino brincando de "assassino" usando uma meia de nylon sobre o rosto e segurando uma arma de brinquedo a uma viúva de luto num funeral. Mas quando o expediente do crime acabava, dava voltas no bairros pobres para registrar outras realidades, ainda que também muito duras.


A menina com o pão, no bairro Kalsa, em Palermo, 1979, de Letizia Battaglia Foto: Letizia Battaglia / Divulgação/IMS

Battaglia começou a fotografar a máfia em meados dos anos 1970, quando assumiu o cargo de editora de fotografia no vespertino “L’Ora”, aguerrido jornal comunista. À época, a cidade vivia a chamada "Guerra da Máfia", um período marcado por desemprego, ascensão do tráfico de drogas, decadência urbana e escalada da violência, que vitimava juízes, políticos, policiais, jornalistas e até mulheres e crianças.

Em 1979, ela registrou a prisão do chefão Leoluca Bagarella. Letizia estava tão próxima dele que o mafioso tentou lhe dar um pontapé. Ela se assustou e caiu. Mas a foto já estava feita: Bagarella aparece raivoso, os olhos baixos, rodeado por policiais. Alexander Stille, autor de "Excellent Cadavers", falou à "New York Review of Books", em 1999, sobre a coragem da fotógrafa: "Ela documentou as atrocidades da máfia muito antes de ser popular ou seguro fazê-lo".

Quando esteve no Brasil, em 2018, Battaglia disse que queria fotografar travestis pelas ruas de São Paulo. Segundo o colunista do GLOBO Ancelmo Gois, ela registrou a manifestação #EleNão, contra o ainda candidato à presidência Jair Bolsonaro.

Sangue e glamour

Nascida em Palermo, em 1935, Battaglia largou o marido e a vida de dona de casa em Palermo, na Sicília, e foi-se embora para Milão, com as três filhas, em busca do “direito à liberdade”. Tinha 36 anos. Para sustentar as meninas, escrevia para jornais e revistas, mas logo percebeu que ganharia mais se, junto com os textos, enviasse também fotos.

Em sua carreira, a fotógrafa também documentou a alta sociedade siciliana, cujos membros muitas vezes tinham ligação com a máfia que ela tão bem conhecia. Muitas vezes, após passar o dia fotografando a violênciai, ela saía à caça de alguma imagem que lhe transmitisse vida. Começou a fotografar crianças — em especial, meninas às vésperas da adolescência — nos bairros pobres de Palermo.

— As meninas me salvaram. Eu estava tão habituada a uma rotina de sangue e morte que comecei a fotografar crianças em busca de alguma esperança, algum sonho, alguma força — disse. — Depois de fotografar mortos o dia inteiro, eu queria registrar algo positivo: crianças, mulheres, um pássaro ou uma flor. Qualquer coisa que tivesse vida.

Em 1985, Battaglia se filiou ao Partido Verde, foi eleita conselheira municipal e, em 1991, deputada regional. Dizia amar sua cidade "como quem ama uma pessoa doente, que precisa de cuidados". Em 2016, inaugurou o Centro Internacional de Fotografia, na zona portuária da cidade, para oferecer oficinas e atividades culturais, além de abrigar exposições de fotógragos celebrados e de jovens talentos.

Dona de uma arquivo de mais de 600 mil imagens, Battaglia com frequência recebia pedidos de ajuda de investigadores da polícia, em busca de evidências que pudessem estar em suas imagens. Uma vez, chamou sua coleção de "arquivo de sangue". A fotógrafa realizou diversas exposições individuais pelo mundo e foi tema de vários documentários de cinema, incluindo o "Shooting the Mafia" (2019), do cineasta britânico Kim Longinotto.

Fonte: O Globo

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