Jorge Drexler: 'O Brasil sempre foi muito generoso comigo'


Parceiro de Marisa Monte em 'Vento sardo', cantor e compositor uruguaio volta ao país com show de 'Tinta y tiempo', álbum nascido da exaustão da Covid-19: 'A pandemia não conseguiu derrotar o eros'

Porto Velho, RO - No show de seu mais novo álbum, “Tinta y tiempo” (o disco sai no streaming esta sexta-feira, dia também do início da turnê, em Girona, na Espanha), o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler incluiu “Vento sardo” – parceria com Marisa Monte, lançada pela cantora como faixa bônus de seu mais recente álbum, “Portas” (2021). Segundo Drexler, esta “canção bilíngue, com uma base de blues semi-nordestino” ressurgirá no show em versão “mais para o lado do blues”.

— “Vento sardo” é muito diferente da minha música habitual, mas creio que isso a torna mais atraente — aponta o artista, em entrevista por Zoom. — A canção realmente foi composta com a Marisa num barco na Sardenha, numas férias que passamos juntos porque temos um amigo em comum, que nos convidou para a Itália. Foram dias belíssimos.

Tenho uma admiração artística e humana sem limites pela Marisa, ela é uma fonte de inspiração permanente. Como muitos brasileiros de sua geração, ela tem esse jeito de compor como quem está brincando, como quem está jogando baralho depois da sobremesa. Sem pensar, a gente estava compondo uma música.

“Vento sardo” é mais um dos lances da aproximação de Drexler com o Brasil, país no qual ele apresenta o espetáculo de “Tinta y tiempo” em setembro (por enquanto, estão marcadas apresentações em São Paulo – dia 24, no Vibra – e Porto Alegre – 25, no Teatro Araújo Vianna). Depois de ter gravado com Caetano Veloso (em “Bolivia”, do álbum “Bailar em la cueva”, de 2014), no ano passado ele participou de faixas da dupla Anavitória (a parceria “Lisboa-Madrid”) e de Gal Costa (a regravação de “Negro amor” para o álbum de duetos da cantora, “Nenhuma dor”).

— O Brasil foi muito generoso comigo desde a primeira viagem que eu fiz, com Paulinho Moska. Não permitiria que o país ficasse fora da turnê, porque eu adoro ir aí para fazer música ou apenas para ver os amigos — conta Drexler que, como muitos, sofreu com a Covid-19 (ele e a mulher, a atriz e cantora espanhola Leonor Watling, se contaminaram logo no início da pandemia) e com o isolamento que ela provocou. — Gosto da interação humana.

E fiquei esse tempo sem viajar, sem cantar, sem receber amigos em casa, sem abraçar estranhos, sem conhecer gente... foi muito difícil, porque entrei nesse estado que em inglês eles chamam de languishing (definhamento), que não chega a ser uma depressão completa, mas que atrapalha muito o processo criativo.

O artista, de 57 anos, diz ter chegado a compor algumas canções sobre a solidão e a distância, até que veio a memória do avô, um judeu que conseguiu fugir da Alemanha nazista em 1939.

— Eu sempre perguntava a ele que tinha sido aquela loucura (da guerra) e ele só dizia: “tempos ruins”. Todos nós temos um impulso de seguir adiante — explica. — Li muito e tentei entender o que aconteceu durante a pandemia, mas depois de um tempo eu não quis mais falar sobre o assunto. Assim, quando comecei o disco, vi que estava deixando de fora todo um outro lado da pandemia, o do eros, o da necessidade de celebração da vida, o de sentir-se vivo, com fome de experiências.

Capa do álbum "Tinta y tiempo", do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler Foto: Reprodução

“Tinta y tempo” acabou saindo um álbum repleto de colorido sonoro (com participação de uma orquestra em algumas das faixas), de pulsão rítmica e de otimismo – um álbum nascido da incontrolável necessidade de se falar de amor e de arte em tempos tão complicados.

— Este é um disco que opera com essa ferramenta tão essencial da espécie humana que é a negação. Ele tem essa vontade de que as coisas aconteçam. Você não canta uma canção de ninar para um bebê que já está dormindo, você canta com a esperança de que ele durma — ensina Drexler. — Mais do que uma canção de ninar, esse disco é uma canção para acordar desse sono e dessa quase depressão que a pandemia significou para as pessoas que, como eu, são muito sociais.

Fiquei esse tempo sem viajar, sem cantar, sem receber amigos em casa, sem abraçar estranhos, sem conhecer gente... eu não queria gravar um disco que falasse os termos da pandemia, especialmente o da escassez. O que eu queria era um disco que soasse grande, caro e expansivo. Com “Tinta y tiempo”, eu prefiro pensar que a pandemia não conseguiu derrotar o eros.

Inspiração da família

Apesar de “expansivo”, “Tinta y tempo” é um disco de canções inspiradas pelo seu núcleo mais íntimo de Jorge Drexler: a mulher, os três filhos e a mãe, Lucero Prada, falecida há três anos.

— Na verdade, eu precisava de uma ligação com a realidade, com as pessoas que você tem por perto, muito embora essa ligação não fosse narrativa, já que eu não queria relatar a realidade — conta ele, que dedicou as canções “Cinturón blanco” e “Corazón impar” especialmente à mulher. — Não tinha reparado ainda que os protagonistas do disco são a minha família mais próxima!

Primeiro single lançado do disco “Tocarte” traz o lado mais rítmico do trabalho e um aceno ao Brasil, no uso da batida do funk carioca (a faixa é uma parceria com o rapper espanhol C. Tangana, um entusiasta do funk, com quem Drexler havia colaborado no hit “Nominao”, do ano passado).

— Sou um apaixonado pelas sucessivas maneiras que o Brasil tem de manifestar a sua identidade, e vejo que o processo é sempre o mesmo: ele começa na periferia, depois entra na zona mais próspera da cidade, mescla-se com a canção e aí os compositores entendem que esse não é só um patrimônio da favela — teoriza o artista.

No Brasil, sempre ouvia falar do funk de uma forma depreciativa, mas logo que eu entrei em contato com ele, percebi vários processos em comum com o da batida de violão do João Gilberto: essa redução minimalista do samba, levada a um instrumento só. O funk tem todos os componentes culturais que adoro, a relação com as raízes, contemporaneidade, minimalismo e transgressão, sempre procurando um novo tipo de beleza. Que eu saiba, ainda não apareceu um João Gilberto (do funk). Mas o processo, esse é igual.

Para o show de “Tinta y tempo”, Jorge Drexler também resolveu fazer tudo novo: montou uma banda com três mulheres e três homens, liderada por Carles Campi Campón, produtor do disco e estrela do underground espanhol.

— Eu precisava tentar trabalhar com essa energia, essa musicalidade diferente que os homens e as mulheres têm e que para mim tem sido uma descoberta incrível — diz.

Fonte: O Globo


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