Figurino da vez no carnaval de rua tapa, mas nem tanto


Cheias de confiança, mulheres usam pequenos adereços para cobrir mamilos

Porto Velho, RO - Com apenas adesivos, glitter, tintas ou pequenos círculos de tecido cobrindo os mamilos, mulheres se vestiram com confiança para quebrar limites durante o carnaval. Sem medo de ousar, elas levantam a mesma bandeira: “o corpo é meu e a decisão sobre o que mostrar, também”.

O movimento free the nipples (libertem os mamilos) surgiu em 2014 com uma hashtag nas redes sociais, em referência ao nome do filme dirigido pela ativista americana Lina Esco.

Desprendida, no alto do Morro da Conceição, a cabeleireira Vivian Nunes, de 35 anos, afirma ter superado traumas do passado para conseguir se aceitar e expressar a alegria do amor próprio durante a folia.

— A autoaceitação me fez sair com os peitos de fora no carnaval. Eu sou mãe de uma menina de 16 anos. Com a maternidade, o meu peito ficou deformado já que, na amamentação, a minha filha preferia um dos seios. Eu nunca tinha saído com ele de fora, mas hoje eu falei: ‘foda-se’. Eu tenho cabelo grande e ainda coloco ele para frente, mas aceitei que meu seio é desse jeito. A idade e a maturidade me deram segurança para sair assim — contou Vivian, que veio de São Paulo para curtir o carnaval carioca pela segunda vez.

Sentimento é compartilhado pela professora de educação física Lívia Rocha, 29. Ela diz que o carnaval é uma época de experimentação, onde é permitido testar tudo o que nunca se ousou antes.

— É a primeira vez que eu venho com apenas os nipples tapados. Eu me visto com uma blusa para sair de casa, pegar transporte público e andar de Uber. Só quando chego no bloco e percebo que estou em um lugar seguro é que eu me sinto bem para tirar a blusa. Me sinto protegida com meus amigos, que são LGBTs também.

Liberdade como terapia

Para muito além da fantasia, as mulheres aderiram à moda do nipples como forma de enfrentamento de traumas adquiridos ao longo da vida. Muitas delas relatam que se sentiram encorajadas pelo amadurecimento, como é o caso da naturóloga Ananda Lopes, 29.

Em fevereiro, Ananda visitou comunidades indígenas em Sergipe e Alagoas, onde aprendeu a olhar para o próprio corpo sem sexualizá-lo. Quando despiu os seios em um dos rituais indígenas, a paulista passou mal ao recordar dos abusos sexuais que sofreu no passado, mas a nudez dos seios funcionou como terapia.

— Eu sofri assédio e já fui abusada sexualmente. Foi uma experiência difícil para mim — contou.

Moradora da Lapa, ela estreou a fantasia na quinta-feira. Passou só uma tinta vermelha nos mamilos, fez uns coraçõezinhos e saiu pro bloco. Hoje, ela colocou uma fita para ficar mais confortável, porque se sentiu “invadida” com o bico do peito muito à mostra.

— Eu me sentia desconfortável quando esbarravam em mim. Coloquei a fita, mas não foi pelo olhar das pessoas. No último carnaval, em 2020, vi uma mulher apenas com o bico do peito tampado e uma flor ao redor. Achei empoderador. Pensei: quando eu estiver preparada, vou fazer igual.

Historicamente, o mamilo feminino é sexualizado e muitas vezes censurado, sobretudo nas redes sociais. Em 2018, a artista Cleo Pires protestou em sua conta no Instagram sobre a restrição imposta, na maioria dos casos, às mulheres. “Meus seios não são órgãos sexuais”, afirmou a atriz à época.

As foliãs acreditam que o carnaval é o cenário ideal para manifestações por mudanças. Para a maquiadora Camila Pestana, 29, os blocos carnavalescos se tornaram palco de expressão feminista.

— É a primeira vez que eu saio assim, pela referência de mulheres lindas vestidas com adesivos no mamilo. Ainda é um problema sair de casa assim, mas botei para jogo. Até coloquei um top na bolsa, mas saí à vontade. O maior medo é voltar para casa. O carnaval abre as portas para a gente andar como quiser. Vejo mulheres com os seios de fora, sem tapa sexo. Isso mostra que estamos dando mais a cara a tapa.


Paolla Oliveira reinou à frente da bateria da Grande Rio Foto: Guito_Moreto / Agência O Globo

Fonte: O Globo

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