Dona das Casas Bahia aposta em marketplaces para itens pesados e vai entregar geladeiras e móveis vendidos em sites de rivais

CEO da Via destaca avanço em serviços para quem está fora do ecossistema da varejista, incluindo opções em crédito digital

Porto Velho, RO - Com oferta de crédito e serviços adaptados ao digital, a Via (dona de Casas Bahia e Ponto) está ampliando sua atuação para fora dos limites da empresa, inclusive para vendedores que estão em outros marketplaces.

“Não estamos olhando quem é e quem não é concorrente. O meu cliente ali é o seller (vendedor do marketplaces), e a solução logística é para ele, não importa onde vendeu”, diz Roberto Fulcherberguer, CEO da companhia.

Pela experiência com entrega de eletroeletrônicos e móveis, o executivo sublinha a vantagem de poder vender e entregar “do alfinete ao foguete”. Avança ainda com empréstimo pessoal e crediário on-line, atraindo desbancarizados pelo país. Diante da concorrência em alta no varejo, condena “quem não paga imposto ou vende item falsificado”.

O que esperar de 2022 com inflação, eleições e Covid?

O empreendedor brasileiro aprendeu a lidar com o Brasil. Sobre a pandemia, em vez de temores, temos procedimentos. E o primeiro deles é acompanhar todos os cenários e responder a eles rapidamente. A eleição deste ano é mais um dado no sofisticado tabuleiro que é o país, que felizmente, tem instituições sólidas.

O Brasil não é fácil nem na calmaria. Para operar aqui, é preciso conhecer bem as nuances do país. Inflação, eleição, juros, todos esses temas são nossos conhecidos, e estamos preparados para lidar com eles. Nos últimos dois anos e meio viemos preparando a Via para uma grande evolução. Agora, estamos colhendo os frutos.

Originalmente, éramos uma companhia de venda de produtos, muito focados em eletrodomésticos e eletrônicos. Agora também somos uma companhia de venda de serviço, que agrega mais de 40 milhões de itens de mais de 110 mil sellers. Isso ajuda nesses momentos porque nossa dependência não é mais única do setor mais duro.

Hoje, nosso crédito é 100% digital, disponível em todo o país, independentemente de eu ter uma loja no lugar. Preparamos a empresa para esses momentos. Eles também geram oportunidades.

O foco é trazer soluções a essas lacunas de mercado?

É isso. Toda a inteligência de dados que a gente vem colocando aqui — e temos uma grande vantagem porque reunimos mais de 90 milhões de consumidores que estão ou já passaram pela empresa — permite fazer tudo cada vez mais dirigido para o indivíduo, para o CPF de cada um dos brasileiros.

Seja dirigido ao consumo, seja com crédito na medida e com a taxa que ele consegue pagar. Além disso, estamos indo por outros caminhos. Por exemplo, hoje, quando você compra uma cápsula de café no site da Nespresso, quem está operando por trás somos nós.

Essa cápsula está guardada no nosso CD (centro de distribuição), estamos fazendo essa logística. E isso começa a acontecer para vários outros itens, marcas e segmentos. A partir da última aquisição que fizemos (em dezembro de 2021), de uma start-up de inteligência e software logístico, a CNT, adicionamos o fullfilment ao nosso negócio.

Ou seja, passamos a hospedar os itens dos sellers nos nossos CDs e a fazer para eles a nossa logística. Em 2021, tornamos nossas 1.100 lojas hubs logísticos. Metade da entrega do nosso on-line sai das nossas lojas. Economizamos frete, sendo mais competitivos para o consumidor, mais rentáveis para o acionista e emitindo menos CO.

Não estamos olhando muito quem é e quem não é concorrente. O seller não quer fazer fullfilment com muita gente porque envolve capital de giro. O meu cliente ali é o seller, e a solução logística é para ele, não importa onde vendeu.

Se ele vender no Magalu, a Via entrega o produto?

Exatamente. Somos a solução de logística, independentemente de onde ele tenha vendido. É “agnóstico” o negócio. Também tem o fato de que o fullfilment hoje é oferecido para itens leves pelos marketplaces.

Só que nós somos uma companhia que veio lá do outro lado, movimentamos geladeira, cama e guarda-roupa a vida inteira. É um novo marketplaces para quem vende item pesado. É aquela história do vendedor do alfinete ao foguete. Aqui é vender e entregar, mesmo, do alfinete ao foguete.

Como vê a concorrência crescente no varejo, incluindo os grupos asiáticos?

A concorrência com os players locais é mais do mesmo. A vida inteira houve uma concorrência, que deixou de ser mais física e passou a ser mais digital. Sempre lidamos bastante bem, estamos ganhando marketshare há oito trimestres seguidos sem perder rentabilidade.

Com toda competição leal e legal, a gente lida bem. Agora, competir com quem não paga imposto ou distribui item falsificado é fora do eixo normal da concorrência. Tem muito player crescendo mas numa base de não tributação e de vender itens de origem questionável.

O pessoal do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo) acabou de fazer um estudo com a (consultoria) McKinsey, com dados palpáveis sobre as centenas de bilhões que o Brasil está deixando de arrecadar por conta dessa concorrência desleal. Acho que isso tem dia e hora para acabar, porque o Brasil não vai ficar assistindo a uma perda gigante de arrecadação durante muito tempo.

A partir do momento em que essa concorrência tiver que pagar todos os tributos, ela vira um concorrente igual a todos os outros que temos aqui. Isso afeta varejo e indústria. Estão chegando aviões todos os dias aqui com toneladas de produtos não tributados.

O digital mudou. A disputa sobre anúncios no Google entre Via e Magalu se resolveu?

As coisas estão acontecendo na esfera jurídica. Normalmente, se resolve pelo bom senso. Não se resolveu ao longo de vários meses e, em algum momento, tomamos a decisão de adotar o mesmo procedimento pelo qual estávamos recebendo ataque.

Mas é um grande desafio, porque as políticas hoje colocadas na internet não impedem que isso aconteça. Tanto que virou notícia. Com todas as evoluções no digital, no Brasil e no mundo, as legislações terão de ser atualizadas. Estamos nessa jornada de evolução.

No crédito, a inadimplência está crescendo?

Olhando para a Via como um todo, a gente vem escalando a carteira de crédito. Não houve piora dos indicadores de inadimplência desde o início da Covid. É que não basta conceder o crédito, é preciso adaptar o tamanho da parcela ao bolso do consumidor.

A companhia faz isso há mais de 50 anos e digitalizamos essa inteligência. O tíquete médio da parcela é ao redor de R$ 200 hoje. O diferencial é que o que vemos de parcela média, às vezes, é o limite total que o cliente tem em outros locais. E expandimos o crédito em dois caminhos.

Um é que o mesmo crediário das lojas físicas agora está presente no on-line também, o que nos levou a fazer uma inclusão de consumidores mesmo onde nunca tivemos presença física. E esse cliente on-line tem a opção de pagar pelo crediário. O que todo mundo oferta é pagamento via cartão de crédito. Só que existe uma fração grande do Brasil que é desbancarizada, não tem cartão.

Tem também uma fração grande que tem cartão, mas tem limite no cartão. Para toda essa massa que não tem esse acesso, a gente está dando essa porta de entrada. E demos um passo além. Quando o BanQi se transformou em SCD (Sociedade de Crédito Direto), no ano passado, começamos a fazer empréstimo pessoal desatrelado da compra de produto.

Usando nossos motores de crédito, também passamos a fazer empréstimo pessoal, e esse negócio vem subindo de maneira expressiva, com taxa de inadimplência muito similar à que tenho na venda de produtos. No crediário fica abaixo de 5%.

E vocês concedem crédito a negativados no mercado?

Uma parte relevante da nossa concessão é de consumidores que são excelentes pagadores aqui na Via, mas que estão com algum problema no mercado, e seguimos fazendo a concessão porque, para nós, é um excelente cliente.

E há crédito para ‘sellers’?

Nós financiamos os itens dos sellers para o nosso consumidor. Ainda não financiamos o seller, mas parte da jornada do BanQi também é fazer esse serviço, que virá no segundo semestre. É importante porque há pequenos e médios empreendedores que se somaram ao nosso ecossistema.

Outra coisa que vem aí, mas no segundo trimestre, é, na linha de utilizar os ativos para fora da companhia, o crediário as a service (como serviço), que é o famoso “compre agora e pague depois”, que lá fora todo mundo descobriu agora. Estamos finalizando nossa plataforma. Um pequeno comércio vai poder usar o nosso crediário para financiar o consumidor dele na venda do produto dele.

A alta da da taxa de juro (Selic) impacta o crédito?

Cada ponto da Selic impacta em R$ 2 a R$ 3 na prestação do item, numa parcela média de pouco mais de R$ 200. É um baixo impacto. A gente ainda não usou esse esse artifício mas, se necessário, se adiciona uma parcela a mais no financiamento e dissolve o impacto.

Fonte: O Globo

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