Canção foi feita em 1967 a pedido de Nara Leão
Porto Velho, RO - Chico Buarque não pretende mais cantar "Com açúcar, com afeto", um dos maiores clássicos de seu repertório. A revelação foi feita no terceiro episódio da série documental "O canto livre de Nara Leão", dirigido por Renato Terra para a Globoplay. No documentário, Chico explica que a música foi composta a pedido de Nara, em 1967.
“Ela me pediu a música, ela me encomendou essa música, ela falou ‘Eu quero agora uma música de mulher sofredora’. E deu exemplos de canções do Assis Valente, Ary Barroso, aqueles sambas da antiga, onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo “Amélia”, aquela coisa. Ela encomendou e eu fiz”, explica o compositor.
Ainda no filme, Chico diz que "gostou de fazer" a canção e destaca que na época não havia esse tipo de interpretação crítica aquela personagem feminina — mas defende a mudança de visão e, por isso, decidiu tirar a música de seu repertório.
“É justo que haja, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar 'Com açúcar e com afeto' mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente.”
Em 2017, Chico se viu em uma polêmica pela letra de "Tua cantiga", lançada naquele ano e parte do álbum "Caravanas". Ele recebeu críticas especialmente por causa dos versos “Quando teu coração suplicar/Ou quando teu capricho exigir/Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”.
A ideia da família abandonada não foi bem recebida. Na época, sem mencionar o tema, mas a harmonia e as rimas, Caetano Veloso elogiou a faixa: "ao ouvi-la, fiquei tomado".
Confira a letra de "Com açúcar, com afeto":
"Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com seu terno mais bonito
Você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é um operário
Sai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o quê
No caminho da oficina
Há um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer?
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você"
Fonte: O Globo