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Eleições 2022 - Evangélicos querem vaga de vice na chapa de Bolsonaro


Após aprovação de Mendonça para cadeira no Supremo, disputa por mais poder entre partidos do Centrão vem à tona

Porto Velho, RO -
A aprovação de André Mendonça para ocupar uma cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) escancarou a disputa entre partidos aliados do governo, que querem emplacar outro nome “terrivelmente evangélico” na Praça dos Três Poderes. Agora, porém, a reivindicação é para ter a vaga de vice na chapa de Jair Bolsonaro à reeleição, em 2022.

Nesta temporada, a ala do Centrão que tem reclamado de desprestígio é a do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus do bispo Edir Macedo. Presidida pelo deputado Marcos Pereira (SP), a legenda comanda o Ministério da Cidadania, mas avalia ter pouco espaço na coalizão governista. A exigência para apoiar Bolsonaro na campanha inclui mais influência no primeiro escalão e na montagem dos palanques estaduais.


Presidente Bolsonaro selou seu retorno ao Centrão ao se filiar ao Partido Liberal (PL) nesta terça-feira, 30. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Há queixas de que o partido vem sofrendo uma espécie de ataque especulativo por parte dos parceiros, que também querem “roubar” seus deputados. O comando do PL, por exemplo, prevê aumentar a bancada em 62% em março de 2022 – período da janela partidária, no qual parlamentares podem trocar de sigla sem perder o mandato –, passando de 42 para 70 parlamentares.

A insatisfação do Republicanos aumentou durante as negociações para a entrada de Bolsonaro ao PL. Não por causa da filiação em si, mas porque o presidente também articulou a migração de ministros para a legenda controlada por Valdemar Costa Neto.

Além disso, alinhavou um “acordo” para abrigar como vice da chapa um político do PP de Arthur Lira, presidente da Câmara. A portas fechadas, integrantes do Republicanos dizem que, para não ser derrotado na disputa de 2022, o inquilino do Palácio do Planalto precisa selar um novo pacto, mas com a cúpula das igrejas e dos templos.

O Planalto fez esse diagnóstico ao indicar André Mendonça, que definiu sua chegada à Suprema Corte como “um salto para os evangélicos”, público que representa 31% do eleitorado. O próximo objeto do desejo dos fiéis é a cadeira de vice. A ideia desse grupo é que, com a saída do general Hamilton Mourão – cada vez mais em rota de colisão com Bolsonaro –, a dobradinha para 2022 seja feita com um evangélico.

Na guerra santa em que se transformaram os últimos episódios, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro (Podemos), principais adversários de Bolsonaro até agora, também lançam “iscas” conservadoras na direção dos templos.

Lula está bem mais adiantado na ofensiva, mesmo porque já fez alianças com líderes religiosos de várias denominações em outras campanhas, até mesmo com o pastor Silas Malafaia, que desde 2018 está com Bolsonaro. Moro, por sua vez, conta com a ajuda do ex-coordenador da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, nessa aproximação. Deltan é da Igreja Batista e vai se filiar ao Podemos. A intenção do ex-procurador é concorrer a deputado federal.

Filiado ao Republicanos, o ministro da Cidadania, João Roma, amenizou o confronto entre os partidos da base de sustentação de Bolsonaro por um lugar ao sol. “Essa ciumeira é normal, mas tudo vai se harmonizar”, disse Roma ao Estadão.

“Tem muita coisa para avançar nessas conversas e o próprio presidente tem dito isso.” O ministro deve deixar o cargo no fim de março para concorrer ao governo da Bahia, em 2022, mesmo enfrentando ACM Neto, presidente do DEM e seu padrinho político.

As queixas de políticos ligados à Igreja Universal incomodam aliados. “O Republicanos foi o primeiro partido a ter ministério no governo Bolsonaro. Além disso, tem espaços até na Educação. É natural, agora, que o vice seja de um partido com tempo de TV e estrutura, como o PP”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que é da bancada evangélica e atuou na caça aos votos para Mendonça.

Os requisitos citados por Sóstenes são exibidos pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria. Vira e mexe lembrado para vice na chapa de Bolsonaro, Faria está prestes a migrar do PSD para o PP, é evangélico e, de quebra, tem raízes no Nordeste, região onde o presidente enfrenta dificuldades eleitorais.

A saída de Faria resolveria, ainda, um imbróglio “doméstico” na Esplanada. É que, no cenário atual, ele e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, querem ser candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Norte. O problema é que só há uma vaga.

Marinho se filiou ao PL na terça-feira, 30, Dia do Evangélico, ao lado de Bolsonaro. Questionado sobre as cotoveladas entre os partidos do Centrão, em busca de mais poder, ele abriu um sorriso. “Esse é o momento de acomodação das placas tectônicas”, desconversou.

Os movimentos do Planalto também têm o objetivo de eleger uma bancada forte no Senado, Casa onde o governo não conta com maioria e tem enfrentado um revés atrás do outro. Mendonça passou pelo crivo dos senadores em votação bastante apertada. Foi no Senado, ainda, que o governo viu prosperar a CPI da Covid, sem conseguir esboçar reação.

Presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular do Amapá, o pastor Guaracy Batista da Silveira Jr. é um dos nomes que pretendem concorrer ao Senado, com apoio de Bolsonaro. Guaracy era apoiador de Davi Alcolumbre (DEM-AP), mas diz que, após o senador tentar atrapalhar de todo jeito a entrada de Mendonça no Supremo – segurando por quatro meses sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) –, receberá o troco nas urnas. “O que o Davi fez foi um acinte, uma coisa vergonhosa”, criticou Guaracy. “Ele traiu o presidente várias vezes”. Como se vê, a pecha de “traidor” não será dirigida apenas ao ex-juiz da Lava Jato nessa campanha.

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