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'Ele falava da minha vagina como se eu não estivesse ali', diz jornalista sobre o médico Renato Kalil

Correspondente no Brasil do The Wall Street Journal diz que sofreu assédio moral de ginecologista durante a gravidez

Porto Velho, RO -
Quando viu o vídeo do parto da influenciadora Shantal Verdelho, que denunciou o ginecologista Renato Kalil por violência obstétrica, a jornalista britânica Samantha Pearson, correspondente no Brasil do jornal The Wall Street Journal, sentiu que tinha chegado a hora de falar.

Ela, que também foi paciente do médico, disse, em entrevista exclusiva ao GLOBO, ter passado por episódios de assédio moral, principalmente na gravidez de sua segunda filha, nascida em 2020.

Quando engravidou de seu primeiro filho, em 2015, a jornalista jamais imaginou que o desejo de ter um parto normal a levaria a viver uma situação que hoje descreve como profundamente traumática.

Samantha conta que chegou ao consultório de Kalil na reta final de sua primeira gestação, porque queria evitar uma cesariana e tinha boas referências do médico que, naquele momento, era considerado uma eminência na obstetrícia brasileira.

O primeiro balde de água fria chegou no parto de seu primeiro filho. Samantha optou por não ser anestesiada e diz ter ouvido perfeitamente Kalil dizer a seu marido, em tom de “Brothers”, que tinha "feito um ponto ali, que ele não ficasse preocupado, porque estava tudo bem".

— Ele falava da minha vagina como se eu não estivesse ali. Passei semanas chorando sozinha em casa, sem saber se ele tinha dado mais pontos do que o necessário, com medo de transar, de sentir dor. Fui a outros médicos para saber se isso podia ser checado, mas não podia. Foi horrível — comenta a jornalista.

A sensação de que algumas coisas estavam muito erradas começou naquela primeira gravidez, mas a ficha terminou de cair em 2019, quando esperava sua segunda filha. Em consulta no oitavo mês de gestação e na frente de sua equipe, Kalil teria comentado, segundo a jornalista: "Samantha, você vai ter de emagrecer porque senão seu marido vai trair você".

A jornalista, de 39 anos, saiu da consulta arrasada. Ainda no consultório de Kalil, diz, foi trocar de roupas e desabou a chorar. Ela sofrera anorexia na adolescência e aquele comentário que classifica como machista e agressivo a convenceu de que seu segundo parto não seria com o mesmo médico. Foi uma decisão muito difícil, apesar do assédio moral que hoje vê com toda clareza.

— Hoje percebo que eu não era a gringa maluca, eu estava certa, nada daquilo era normal. Ele disse aquilo na frente de sua equipe, eu estava quase nua, totalmente exposta. Meu marido estava lá e sempre percebi que o que ele queria o tempo todo era agradar meu marido, como se eu, a paciente, não estivesse lá — conta a jornalista.

Kalil, conta Samantha, teria dito ainda que "as mulheres no Brasil estão desesperadas porque tem cada vez mais veados. Você vai ter de emagrecer porque senão ele vai te trair”. Em áudio enviado à jornalista alguns meses depois, quando percebeu que ela não estava mais indo a seu consultório, o médico afirma que "quis fazer uma brincadeira porque ele está todo sarado, bonitão, cuidando dele e do corpo dele, era um elogio pra ele".

No ano em que a jornalista procurou Kalil, enfatizou ela, "ele era o rei do parto normal" num país onde, na contramão de muitos países, entre eles, a Inglaterra, 90% dos médicos fazem praticamente só cesariana. Samantha queria ter seu filho no Hospital Albert Einstein, e ouviu de muitas fontes que Kalil abria todas as portas.

— Na minha segunda gravidez voltei a ele por isso, tive medo de procurar outro médico e alguma coisa dar errado. Mas em cada consulta vivia coisas muito ruins. Ele me contava intimidades de outras pacientes e de sua própria mulher. Muitas vezes, as pacientes das quais ele falava estavam na sala de espera — diz a jornalista.

Ela nunca tinha falado sobre seus traumas com Kalil porque, admite, queria tentar esquecer tudo o que viveu com ele. Mas quando viu o vídeo do parto de Shantal conta ter sentido vontade de vomitar e um impulso incontrolável de falar.

— Sempre estou do outro lado, defendendo que as pessoas falem. Agora é a minha vez e estou disposta a colaborar com tudo o que for necessário para que seja feita justiça. Ele não me xingou, nem me rasgou, mas a parte psicológica me afetou muito, e ele estragou um momento que deve ser um dos mais bonitos da vida de uma mulher. Se existem outras mulheres assediadas moralmente, gostaria de transmitir confiança para que também falem — concluiu Samantha.

Fonte: O Globo

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